hotmail.com
Psicólogo Clínico Gestalt-terapeuta
CRP 12/07911
Estou esperando você. – Pensa, com as mãos dentro dos bolsos de sua calça jeans.
Entre ele e ela existem tantas coisas. Lacunas intermináveis de pensamentos e sentimentos que às vezes se desmancham, quando por acaso se aproxima alguém tão parecido com ela. Encontrado em semelhanças de cabelos e gestos e sorrisos e jeitos, mas, quando passam esses parecidos, é apenas uma ilusão dolorida, uma angustia do quase.
Espera. Observa os grandes ponteiros do tempo, que giram do alto daquela torre apontada para o céu. É metade de hora e os sinos dobram. E sem a presença dela era como se sentisse apenas uma metade de algo. Um corpo para se desdobrar.
Quantos encontros ali foram marcados? Quantas bocas se encontraram ali? Eu seria mais um que teria esse sucesso? – Questiona-se.
É uma espera interminável. Pensa em contar a quantidade de degraus para o tempo voar. Impossível, olhando lá de cima. Os passos somem com a distância e tudo se reduz. Talvez descer contando? Mas e se ela aparecer e não me encontrar enquanto me concentro olhando a paixão de Cristo e sei lá em qual degrau eu já estiver, pois, nesse momento eu já perdi a conta? Vai saber... A vida tem dessas coisas... Desencontros... Então, permaneço onde estou.
Um suor nas mãos. Um aperto no estômago. A mandíbula que se aperta pressionando os dentes.
Se pudesse negociar com a ansiedade e com o tempo. – Pensa. Contudo, ambos implacáveis, porém, não maus. Mas isso só iria descobrir com a ideia de alguns infinitos.
Existia algo que fazia o mundo parar enquanto as pessoas continuavam a pedalar com força e os cabelos esvoaçados eram ainda cabelos que se desarrumavam ao vento. Existia algo que fazia o mundo parar enquanto pessoas discutiam tomando sorvete de creme mesclado com chocolate. E as crianças nasciam aos milhares, porque a única forma de prazer após uma jornada de doze horas em um serviço era amenizar o sofrimento da sujeição do corpo através da entrega ao corpo do outro.
Instantes de prazer. E jamais veria o mundo da mesma forma. Apenas instantes das melhores coisas que ficariam registradas em seu corpo como uma impressão que nunca se apagaria. E a eternidade estaria contida naquela partícula atemporal, naquele momento que fazia o mundo de alguma forma parar.
E o mundo parou instantaneamente.
Quando ele a percebeu, já tinha passado pelo calvário e por todos os degraus que ele não quis arriscar contar, pois, vai saber se a vida não possuía uma carta nas mangas?
Evaporaram-se as mandíbulas que apertava o estômago e os dentes que suavam... Mas o que estou dizendo? – Pensava.
Percebeu que ela não era a verossimilhança das pessoas, porque ele jamais viu um sorriso que se pronunciava em alguém tão solar como naquele dia de sol. Era um sorriso caloroso.
Ela usava uma calça à bailarina azul e olhos castanhos. Sorrimos. E nossas bocas se incandesceram. Era outono. E ambos foram mais “um” que se encontraram naquele lugar, como um registro que nunca se apagaria, de um mundo que um dia parou nas proximidades do inverno dos tantos degraus de suas vidas.