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Psicólogo Clínico Gestalt-terapeuta
CRP 12/07911
Sexta-FeiraLá estávamos. Nós três. Ontem. Engraçado dizer ontem, pois, é tudo como se fosse hoje. Mas o hoje parece ser algo rabiscado como uma pintura enquadrada, uma pintura emoldurada. Estranho dizer isso quando o tempo é tão volátil. E também implacável. Sim... Implacável. Um quadro como uma pincelada inacabada de vida, por assim dizer.
A fumaça do cigarro arde aos olhos enquanto uma tragada preenche a boca de um amargo seco. A vida parecia árida demais. A secura do tempo mesclava as montanhas verdes em um branco fosco. Mas quem se importava se a camada de Ozônio tivesse ou não um buraco já que tudo aquilo era uma grande lacuna existencial.
Deveria ser mais fácil ter nascido em outra época, tudo pareceria ser tão menos complicado, dizia Gean.
Gean é um dos nossos. Éramos um bando de três. Tipo os três mosqueteiros. Ou será que estávamos mais para os três patetas? Era a lacuna existencial que fazia questionar.
No rádio tocava “She has robes and she has monkeys, lazy diamond studded flunkies. She has wisdom and knows what to do, she has me and she has you”.
Do buraco na camada do sei lá o quê nem me importo, mas desse furo na minha calça jeans quase nova é pra acabar, falava Fábio, que atravessava o dedo de um lado ao outro da calça que fora alvejada por um dos fios de aço arrepiado do freio esquerdo de sua bicicleta.
“É pra acabar”. Realmente não me lembro se usávamos essa expressão no ontem, mas, é a única que parece caber no hoje. As lembranças são como a secura do tempo que mescla de fosco as reminiscências, elas vão ficando embaçadas, como uma fumaça no olho.
Talvez Gean tivesse razão, segundos que ficam para trás são mais fáceis de viver, não seriam tão agressivos quanto um fio farpado de um freio que penetra a carne. Mas tudo isso era um grande talvez. Um quase. Um grande buraco arrombado em uma calça jeans.
Binho falava do Boni e seu ursinho de estimação enquanto escutávamos o Doors e Ray Manzarek fazendo um solo em Maggie M´Gill. Comentávamos sobre as circunstâncias em ficar com as meninas mais bonitas do nosso colégio, da impossibilidade que existia na relação de três desconhecidos e sem nenhum atributo físico, financeiro, ou qualquer outro status que pudesse nos abrir alguma oportunidade. Por isso Doors caía tão bem àquela tarde... Às portas da percepção.
Ainda era Sexta-Feira, de alguns vinte e um anos passados do buraco na camada de Ozônio. Boni está em alguma lembrança do hoje como uma fumaça embasada que arde no olho.
O hoje Fábio se casou com a sua menina mais bonita. Gean veste um Opala Azul, carro que de um passado que era mais simples. E as reminiscências não se emolduram nunca, pois, sempre que observo a tinta da vida colocada em tela, sempre elas estão mudando de cor, assim quando alguém olha para a mesma imagem enquadrada verá coisas que eu não vi ou vivi.