Dr. José Kormann (Histórias da História)
Historiador
O acórdão de 1916
É um dos atos mais arbitrários da História da República. Ele foi assinado por Wenceslau Brás, presidente da República; por Affonso Camargo, governador do Paraná; e por Felipe Schmidt, governador de Santa Catarina. Pelo que o Supremo Tribunal Federal determinou em 1910, ao norte a divisa entre o Paraná e Santa Catarina seria o Rio Iguaçu e não o Rio Negro. Passaram, assim, os três executivos, por cima da corte máxima da justiça violando a independência dos Três Poderes e dessa forma o Contestado permanece contestável pela História a fora. Talvez isso de deva ao fato de haver confusão entre Contestado e Guerra do Contestado.
Marcas históricas da Guerra em Santa Catarina
Muitas são as marcas históricas que ficaram em solo catarinense: locais de redutos, de povoados que foram queimados, de batalhas travadas, fontes de águas “santificadas” pelos “monges profetas”, cruzes por eles erigidas como também grutas e locais onde viveram; merece destaque a já célebre Universidade do Contestado. As consequências sociais são evidentes. Muitos dizem que falar do Contestado é um risco para quem necessita de emprego. A ignorância foi um dos fatores da Guerra e ainda é forte nas áreas por ela atingida. Hoje grande parcela do povo ali vive na miséria. A região está a 300 Km da Capital e isso dificulta. Curitiba está mais perto.
Assim se fazia
Presidente Getúlio Vargas, em 1930, a frente do Governo Provisório que se tornou definitivo por 15 anos e chamado “Pai dos Pobres” acertou com a Alemanha a construção de um porto em Torres, divisa de Santa Catarina com o Rio Grande do Sul, mediante a concessão de exploração por 40 anos e mais a posse definitiva de um milhão de hectares de terras. Assim 70 mil posseiros foram simplesmente expulsos causando grande conflito social, mas “governo falou, a causa acabou e o pobre ralou”. O General Vieira Rosa que esteve no Contestado falou “... eu sou pelo caboclo. Sei-o muito superior a muito habitantes da cidade à moralidade, hospitalidade e costumes”.
Adeodato
Foi o último grande chefe do Contestado. Reuniu em Santa Maria tudo o que ainda restava da revolta e assim foi fácil o exército cercar este local e dominá-lo. Nesses últimos momentos Adeodato foi terrivelmente cruel. Matou mais de 645 pessoas de sua gente, fosse para impor sua autoridade, fosse em decorrência de disputas internas ou de simples desconfiança de tentativas de querer abandonar o reduto. As grávidas sofriam morte cruel. Nessa agonia final um homem, mais para não lembrar o triste fim ou para esquecer a fome pela qual também se matava, começou a lecionar, mas Adeodato matou a todos dizendo: “Que será dos adultos se as crianças estudarem”.
Casos de injustiça
Houve casos em que se dizia vender a posse do terreno em troca da produção de erva-mate, mas quando dessa feita tudo estava pago, chamavam as forças militares para expulsa-lo de sua posse. Passaram a fabricar dinheiro, mas quando não aceito, pelas armas se o fazia valer. O Capitão Matos Costa que conseguia dialogar com o pessoal dos redutos objetivando a paz, foi morto a mando do “coronel” Manoel Fabrício Vieira. “...não vejo num homem armado condições éticas e diplomáticas para tratar de um assunto que é exclusividade política”, Felipe Schmidt ao General Setembrino que pedia diálogo com os revoltosos, mas este xingou falta de patriotismo.
Sumário
Área: centro norte catarinense, 40.000 Km2; exército: 7.000; caboclos mortos: 10.000; militares mortos: cerca de 500; população da área: 30.000; data: 1912 a 1916.