Falar em cultivo de cenouras, couve ou tomate no mundo acelerado em que vivemos parece até fora de propósito. Mas em meio a todas as revoluções tecnológicas que temos acompanhado, parece também haver uma tendência de se voltar para a natureza – e nesse contexto plantar a própria comida se tornou terapia e aprendizado. E engana-se quem pensa que este é um pensamento da vovó e está à beira da extinção: ultimamente, temos presenciado um grande crescimento do movimento de criação de hortas dentro das maiores cidades do mundo.
O fenômeno das hortas urbanas surgiu nos países do norte da Europa durante a segunda metade do século XIX, como reação à diminuição dos espaços verdes na sequência da crescente industrialização e urbanização. Na Alemanha, existem hortas urbanas desde 1864; já na Dinamarca, esta tradição remonta ao século XVIII. Atualmente as hortas urbanas crescem em cidades como Nova York, Los Angeles, Chicago e Londres. Em nosso país, a prática é recente e tem surgido a partir de iniciativas individuais.
As hortas surgem nos mais variados contextos: improvisadas, em um pequeno espaço de terreno, em sacadas de apartamentos ou lajes de cobertura ou ainda ordenadas em projetos municipais. Podem ser individuais ou compartilhadas, quando cultivada e dividida igualmente numa área comum. Já em relação aos métodos produtivos, a maioria destas hortas é cultivada com técnicas “amigas” do meio ambiente: com a inclusão de compostagem de resíduos orgânicos e com a não utilização de adubos químicos.
Uma pequena cidade da Inglaterra, chamada Todmorden, abraçou a causa e hoje propicia que seus 17 mil habitantes se alimentem de graça. Lá, há cerca de cinco anos nasceu o projeto The Incredible Edible Todmorden (A incrível comestível Todmorden), que consiste no cultivo de hortas coletivas em espaços públicos da cidade. São mais de 40 hortas espalhadas na cidade, desde banheiras nas ruas até o quintal da delegacia – e todo alimento cultivado nesses locais está disponível para qualquer morador consumir, de graça. A ideia é de incentivar que toda comunidade cultive seus próprios alimentos e pense melhor sobre os recursos que consome.
Segundo Hans Dieter Temp, administrador de empresas e fundador da ONG Cidades sem Fome de Suzano/SP, “nada mais útil para um terreno baldio do que transformá-lo em uma horta”. Em Londres, o projeto Food in the Sky (ou Comida no Céu) incentiva a criação de fazendas urbanas no alto dos prédios e, em alguns locais, ao invés de comprar as frutas nos balcões de mercados, os clientes podem colher os alimentos que querem consumir direto da horta. Em outros casos, os próprios funcionários de empresas instaladas nestes edifícios cuidam das frutas e legumes, que viram lanches na cantina da empresa. A cidade inglesa também aluga lotes para os cidadãos cultivarem hortaliças, mas a procura é tamanha que a fila de espera chega a oito anos (!). Por aqui, já estão sendo lançados prédios residenciais com áreas de plantio coletivo em Florianópolis.
E você, querido leitor, que tal aproveitar este Carnaval para iniciar sua horta?!