Estoque de empregos celetistas sobe 1,2% no comércio atacadista paulista, mas crescimento perde força
Mesmo com maior número de trabalhadores da série histórica, ritmo de contratações diminuiu frente a juros e endividamento elevados e inflação acima da meta
O comércio atacadista paulista terminou o primeiro semestre deste ano com uma base de cerca de 632 mil postos de trabalho formais, mostram dados da Federação do Comércio de Bens, Serviços e Turismo do Estado de São Paulo (FecomercioSP). É o maior contingente de trabalhadores no setor da série histórica, iniciada em 2020. Em junho, a alta foi de 1,2% em relação ao mesmo período de 2025.
O maior número de trabalhadores estava concentrado nos grupos de alimentos e bebidas, com 194 mil postos, além de produtos farmacêuticos, perfumarias e higiene pessoal (63.539) e máquinas de uso comercial e industrial (62.469). Em comparação com junho do ano passado, oito atividades registraram aumento do estoque de trabalhadores, com destaque para papel, resíduos e sucatas (2,6%), alimentos e bebidas (2,3%) e produtos e equipamentos para uso médico, hospitalar e odontológico (1,9%).
Apesar do recorde no total de colaboradores ativos, o ritmo da expansão do emprego vem desacelerando, refletindo a base forte de comparação, mas também a perda de fôlego da economia diante dos juros elevados, do endividamento das famílias e da inflação acima do teto da meta [gráfico 1].
[Gráfico 1]
Variação anual (%) do estoque de empregos formais
Fonte: Caged/FecomercioSP
O número de vagas criadas no semestre também caiu. Enquanto entre janeiro e junho de 2025 o atacado gerou 12.005 vagas, em 2026, no mesmo período, foram criados 5.536 postos de trabalho, resultado de 159.515 admissões e 153.979 desligamentos, constituindo o pior saldo para um primeiro semestre desde 2020 [tabela 1].
[Tabela 1]
Comércio Atacadista do Estado de São Paulo
Fonte: Caged/FecomercioSP
O comércio atacadista representa o principal elo entre quem produz e quem vende aos consumidores finais, concentrando a venda de produtos em grandes quantidades para empresas e lojistas. O setor ocupa uma posição estratégica na cadeia de distribuição de mercadorias, intermediando a produção industrial, a agropecuária e o varejo, além de financiar o capital de giro da cadeia e viabilizar a capilaridade da oferta de produtos em todo o território nacional.
Quando se trata do Estado de São Paulo, o segmento sustenta uma ampla e diversificada base de empregos, que reflete a heterogeneidade da economia paulista ao abranger a distribuição de alimentos, insumos agropecuários, bens de consumo duráveis, produtos intermediários e insumos para a saúde.
[Tabela 2]
Comércio atacadista do Estado de São Paulo
Fonte: Caged/FecomercioSP
O saldo das contratações de junho foi de 1.358 vagas, com 7 das 11 atividades avaliadas abrindo postos com carteira assinada [tabela 2]. O grupo de alimentos e bebidas foi o principal destaque positivo, com a criação de 1.052 empregos, seguido por produtos e equipamentos para uso médico, hospitalar e odontológico (124 vagas). O segmento de produtos químicos, metalúrgicos e insumos agrícolas, por sua vez, fechou 141 postos.
Rotatividade alta pressiona custos para empresas
O levantamento da FecomercioSP mostra também um impasse do setor: a retenção de colaboradores. O turnover subiu para 47,3%, ante os 45% registrados há três anos. Na avaliação da Federação, o resultado reflete o cenário de baixo desemprego, no qual há mais vagas disponíveis do que candidatos qualificados, e o trabalhador passa a migrar com mais frequência entre empregadores em busca de salários melhores, benefícios e posições mais próximas de sua qualificação.
[Tabela 3]
Rotatividade do comércio atacadista
Fonte: Caged/FecomercioSP
“Acompanhar a taxa de rotatividade do setor é de extrema importância, porque nos mostra tanto o aquecimento do mercado de trabalho como os custos para as empresas”, explica o presidente do Conselho de Comércio Atacadista da FecomercioSP, Ronaldo Jamar Taboada. “Para os negócios, mudanças constantes no quadro de colaboradores significam mais custos com recrutamento, seleção, exames admissionais e treinamento.”
Além das despesas diretas, há outro impacto mais difícil de mensurar — o período entre a contratação do novo funcionário e o momento em que ele atinge a plena produtividade, já que ocorre a perda de capital humano específico da empresa, que envolve conhecimento tácito, relacionamentos com clientes e fornecedores e processos internos. No comércio atacadista, essa fase é particularmente importante, já que os trabalhadores precisam conhecer o mix de produtos, os fornecedores e, principalmente, a carteira de clientes.
“Se, por um lado, podemos comemorar o pleno emprego, por outro, a dificuldade de reter e de encontrar funcionários qualificados se tornou um gargalo para o setor. Por isso, a gestão de pessoas precisa ser vista como um diferencial competitivo, com investimentos em retenção, planos de carreira, ambientes de trabalho atrativos e qualificação”, afirma Taboada.
Ao mesmo tempo, é importante que os profissionais também se preparem para as oportunidades disponíveis. “Quem estiver em busca de uma vaga no setor atacadista, pode buscar instituições como o Senac-SP, que cumprem um papel fundamental de formação de mão de obra para o nosso setor”, sugere o presidente.
Das 11 atividades avaliadas pelo levantamento da FecomercioSP, 8 apresentaram mais rotatividade em junho de 2026, quando comparadas com o mesmo período de 2023. As maiores altas foram observadas nos segmentos de eletrônicos, informática e equipamentos de uso pessoal, de alimentos e bebidas e de produtos farmacêuticos, perfumaria e higiene pessoal, todos com crescimento de 4,6 pontos porcentuais (p.p.). Já os segmentos de papel, resíduos e sucatas (-2,8 p.p.), tecidos, vestuário e calçados (-2,5 p.p.) e máquinas de uso comercial e industrial (-2,2 p.p.) recuaram.
No sentido inverso, a maior demanda por mão de obra qualificada e especializada no grupo de produtos e equipamentos para uso médico, hospitalar e odontológico fez com que o segmento registrasse a menor taxa de rotatividade entre as atividades avaliadas, 32% ou cerca de 15 p.p. abaixo da média setorial (47,3%), mantendo-se muito próxima da estabilidade ao variar apenas 0,4 p.p. em relação a 2023.
Sobre a FecomercioSP
Reúne líderes empresariais, especialistas e consultores para fomentar o desenvolvimento do empreendedorismo. Em conjunto com o governo, mobiliza-se pela desburocratização e pela modernização, desenvolve soluções, elabora pesquisas e disponibiliza conteúdo prático sobre as questões que impactam a vida do empreendedor. Representa 1,8 milhão de empresários, que respondem por quase 10% do Produto Interno Bruto (PIB) brasileiro e geram em torno de 10 milhões de empregos.