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Tarifa de 50% dos EUA atinge indústria de móveis e ameaça empregos no Brasil

Segunda, 28 de julho de 2025

Tarifa de 50% dos EUA atinge indústria de móveis e ameaça empregos no Brasil

Exportadores já enfrentam cancelamentos, paralisação da produção e risco sistêmico na cadeia que

emprega 1,1 milhão de pessoas no país; ABIMÓVEL atua em várias esferas para conter impactos

A decisão do governo dos Estados Unidos de aplicar uma tarifa de 50% sobre produtos

brasileiros a partir de 1o de agosto de 2025 vem provocando reações em todo o setor

produtivo nacional, com especial atenção àqueles historicamente comprometidos com o

comércio exterior e com cadeias produtivas altamente integradas, como é o caso da indústria

brasileira de móveis. Setor que se vê diante de um risco sistêmico que pode interromper

décadas de posicionamento de mercado, relacionamentos comerciais e investimentos

industriais que beneficiam a geração de emprego e o desenvolvimento econômico do país.

Os Estados Unidos absorvem cerca de 30% dos embarques internacionais de móveis e

colchões prontos, e quase 40% das exportações de matérias-primas, insumos e

tecnologias com produção no Brasil, sendo o principal destino do setor no exterior. Só entre

janeiro e maio deste ano, a indústria moveleira exportou mais de US$ 306 milhões em produtos

acabados e 1,4 bilhão em suprimentos para o mercado global.

O impacto da elevação tarifária no setor — que subiu de uma média de 3,5% em abril para

10% em maio deste ano, com previsão de 50% a partir do início de agosto — compromete o

equilíbrio de um ecossistema produtivo interligado, que envolve a indústria de base

florestal, fornecedores de componentes, ferragens, tintas, vernizes, tecidos, embalagens,

painéis e estofamentos; fabricantes de máquinas e equipamentos; a indústria de

transformação; operadores logísticos, transportadores, profissionais autônomos, redes

varejistas, entre outros tantos agentes da cadeia madeira e móvel.

Cadeia, esta, que emprega indiretamente mais de 1,1 milhão de pessoas no Brasil. O

risco de retração nas exportações compromete, portanto, a produção e esse contingente de

trabalhadores, afetando diretamente a economia local de regiões altamente dependentes

do setor. As consequências mais imediatas da nova medida já são perceptíveis: queda nos

pedidos, suspensão de embarques, férias coletivas, retração e cancelamento de

contratos, conforme relatam empresas de diferentes portes e regiões. Além disso, a

supertaxação, que coloca o Brasil como um dos países mais impactados pelo chamado

“tarifaço americano”, influencia negativamente não apenas nos volumes e margens, mas

também na produção, nos investimentos, no comércio e no planejamento estratégico nos dois

países.

"Essa tarifa é extremamente prejudicial para ambos os lados. Não se trata de um problema

apenas comercial, mas de uma questão que afeta pessoas, negócios, empregos, famílias e

comunidades inteiras, bem como a confiança entre dois países historicamente parceiros. A

interrupção do fluxo de mercadorias impacta a economia aqui e também compromete

operações logísticas, contratos, prazos e preços praticados por empresas americanas”, alerta

Irineu Munhoz, presidente da ABIMÓVEL e fundador do Grupo Caemmun, sediado em

Arapongas (PR).

Indústrias de móveis já enfrentam cancelamentos e paralisações

 

Empresas com forte foco exportador já enfrentam queda abrupta nos embarques,

cancelamentos de pedidos e paralisações de produção. A Temasa, empresa com 700

colaboradores, sediada em Caçador (SC), exporta 100% da produção, com 45% tendo

como destino os EUA. “Desde o anúncio do tarifaço, percebemos uma movimentação atípica

por parte dos clientes, com muita preocupação. Ainda não tivemos cancelamentos, mas já

registramos adiamentos nos embarques, o que demonstra indecisão e insegurança

sobre os próximos passos. Isso pode representar a ruptura de quase metade do nosso

volume de vendas”, fala Leonir Antônio Tesser, diretor-geral.

“Exportamos para os EUA desde 1993, com uma cadeia consolidada e produtos desenvolvidos

sob medida para grandes clientes. Trata-se de um nicho específico, com engenharia dedicada,

design personalizado, que não se redireciona facilmente e que deverá também impactar nossa

produção futura”, diz ele. Sobre a possibilidade de compensar a tarifa com reajustes de preços,

Tesser é direto: “Em tese, seria possível, mas só funcionaria com aumentos de 25% a 30%, o

que é totalmente inviável. Nenhuma empresa opera com essa margem. O cenário é realmente

muito preocupante”.

Em São Bento do Sul (SC), Daniel Lutz, CEO da Móveis Serraltense, relata que desde o

início das especulações sobre o tarifaço, os embarques da empresa para os EUA vêm caindo.

“As exportações para os Estados Unidos, que chegaram a representar 80% da nossa

produção em 2024, fecharam o primeiro semestre de 2025 em apenas 30%. A média

mensal de dez a 12 contêineres caiu para dois ou três.”

Segundo ele, desde março os clientes norte-americanos começaram a reduzir os pedidos,

diante da sinalização de aumento tarifário por parte do governo dos EUA. “A tarifa de 10% já

provocou renegociações e pedidos de desconto. Com o anúncio da alíquota de 50%, muitos

cancelaram os pedidos. Alguns ainda vão absorver o prejuízo em nome de contratos

assumidos, mas já sinalizaram que isso não vai se sustentar. Contamos atualmente com 140

colaboradores e entramos em férias coletivas de 10 dias para acompanhar o cenário.

Estamos buscando ampliar vendas para a América Latina e Europa, mas é um momento muito

delicado”, afirma Lutz. Atualmente, os EUA representam quase 43% das exportações de

móveis catarinenses, principal estado exportador do setor.

Em Arapongas (PR), o polo moveleiro também acompanha com atenção o desdobramento da

crise. Embora o Paraná tenha um posicionamento mais diversificado de mercados, os EUA

recebem cerca de 14% do total embarcado pelas empresas do estado. O que se reflete

especialmente entre os fabricantes de estofados de couro da região, que já reportam

problemas, é o caso da Toro Bianco. Marcela Carandina, diretora da empresa que emprega

100 colaboradores, pontua que os embarques previstos para agosto foram cancelados e

que a recuperação da fatia de mercado poderá ser especialmente desafiadora caso a tarifa não

seja revista. “Hoje, as exportações representam 50% do nosso faturamento, com presença em

23 países. Especificamente em relação aos Estados Unidos e Porto Rico, esses mercados

respondem por 20% do total exportado.”

Ela destaca que a retirada das programações de compra para o segundo semestre por

parte dos importadores desses países e a incerteza quanto à continuidade dos pedidos para

2025 já afetam diretamente o planejamento da empresa. “No nosso segmento, perder espaço

no ponto de venda para um concorrente pode gerar um hiato longo até a retomada. Os

lojistas trabalham com compras periódicas e em volumes expressivos, o que torna a

reconquista de mercado ainda mais difícil.”

 

José Lopes Aquino, diretor da Colibri Móveis e presidente do SIMA (Sindicato das

Indústrias de Móveis de Arapongas-PR), reforça que a situação atinge direta ou

indiretamente a todo o setor, reforçando a necessidade de diálogo: “O que esperamos é o uso

da diplomacia na negociação comercial, evitando viés ideológico. Importante que o governo

brasileiro entenda que os EUA são um grande e importante parceiro, onde equilibrar os

interesses visando a continuidade dos negócios é o melhor caminho”, enfatiza.

Euclides Longhi, sócio do grupo Multimóveis e presidente da Movergs (Associação das

Indústrias de Móveis do Estado do Rio Grande do Sul) compartilha do pensamento: "Há

indústrias na região que sofrerão prejuízos grandes, com as exportações para os Estados

Unidos representando uma considerável parcela da produção e dos embarques dessas

empresas [hoje quase 14% das exportações do estado]. Esperamos que os governos

dialoguem e cheguem a um acordo”.

A Artemobili, segunda empresa que mais emprega em Nova Prata (RS), atualmente com 360

colaboradores (este número já foi de 500), entende da importância do mercado

norte-americano: 90% da produção é destinada ao comércio exterior; desse total, 80%

destina-se aos EUA, e a maior parte dos pedidos já foram cancelados, inclusive 20

contêineres prontos para embarque.

“Esse tipo de produto não pode ser colocado em outro mercado. Nossa produção é

personalizada, feita sob encomenda. Já colocamos toda a empresa em férias coletivas. Isso

gera insegurança não só para a nossa empresa, mas para toda uma comunidade, onde

centenas de famílias dependem diretamente do setor moveleiro para sua sobrevivência”,

enfatiza Gabriel João Cherubini, CEO da Artemobili. “E não estamos falando apenas dos

fabricantes: o impacto se espalha por toda a cadeia, paralisando fornecedores de tinta,

ferragens, madeira, componentes... Há fornecedores que já têm florestas com toras cortadas,

previamente encomendadas, e agora não há destino para esse material, que tem vida útil. É

um efeito multiplicador que atinge todos os elos do setor — seus colaboradores, suas famílias,

o comércio local e, consequentemente, a economia nacional”, complementa.

O Grupo K1, um dos maiores grupos moveleiros da América Latina – com 2,3 mil

colaboradores diretos, englobando as marcas Kappesberg, UZ Utilidades, Idélli, Bartzen e

Siamo Casa –, já reporta impacto direto. Comercializando para mais de 45 países, as

exportações são uma fatia significativa da atividade do grupo, que desde 2022 conta com um

Centro de Distribuição nos Estados Unidos, com o mercado americano representando

20% das exportações e 3% do faturamento geral da empresa.

“Internamente, os impactos imediatos são negativos, resultando em cancelamento de

embarques, além dos containers já embarcados que não chegarão ao destino antes do início

da medida, resultando em incertezas no procedimento. A curto prazo, sabemos que haverá

uma desaceleração em negociações e novos contratos, enquanto se reavaliam estratégias

comerciais. Porém, acreditamos no diálogo e em negociações efetivas para reverter ou mitigar

os efeitos da medida. Caso a taxação em 50% não seja revertida, esperamos que possa ser

reduzida, considerando o histórico de bons relacionamentos comerciais”, compartilhou a

empresa em comunicado.

A mmcité br, marca de origem tcheca com unidade em São Bento do Sul (SC), é uma das

empresas que já vinha sentindo os efeitos das políticas tarifárias do governo Trump, mesmo

antes do último anúncio. Com um portfólio predominantemente composto por mobiliário

metálico urbano, a unidade brasileira já enfrenta as cotas de aço e alumínio, que foram

 

dobradas no início de junho, chegando também a 50%. “Não sentimos um impacto

imediato, pois atuamos com base em projetos da construção civil, que têm prazos mais longos.

No entanto, nosso principal cliente já iniciou o processo de transferência da produção para os

Estados Unidos, o que coloca em risco nosso volume atual de exportações”, relata Tomas

Josef Vrtiska, diretor-executivo. No primeiro semestre de 2025, 42% da receita da empresa

teve origem no mercado internacional, sendo 35% provenientes dos EUA.

Efeito em cadeia: fornecedores também sofrem com cancelamentos e retração de

demanda

Dessa forma, a tarifa de 50% não afeta apenas fabricantes de produtos acabados.

Fornecedores da base da cadeia moveleira — como produtores de painéis, tintas,

vernizes, ferragens e máquinas para fabricação de móveis — também já enfrentam

quedas nos pedidos, suspensão de contratos e redirecionamento de estoques.

A Eucatex, empresa fornecedora e exportadora de painéis, com sede corporativa em São

Paulo (SP), vê com preocupação o impacto no mercado norte-americano. Paulo Freitas,

diretor de Assuntos Comerciais da empresa, explica que as exportações e a atuação no

mercado externo representaram 29% do faturamento da companhia no primeiro trimestre de

2025, com atuação em 50 países.

“Nossos principais destinos são os Estados Unidos e a América Latina. Em 2024, 76% das

exportações foram destinadas ao mercado norte-americano. Já no primeiro semestre de

2025, esse percentual subiu para 82%”, afirma. Segundo ele, a Eucatex atua com

distribuição local nos EUA e, caso a tarifa de 50% seja efetivada, haverá necessidade de

repassar aumentos ao consumidor final. “Os clientes estão sendo avisados sobre possíveis

reajustes. A reação do mercado será determinante. Estimamos queda de volume e já

estudamos novas rotas de redirecionamento desta produção.”

Na Renner Sayerlack, produtora de tintas e vernizes com sede em Cajamar (SP), a situação

também já preocupa. Marcelo Cenacchi, diretor-geral, explica que do total de vendas diretas

da empresa aos Estados Unidos, 55% é produzido no Brasil (o restante na fábrica da Itália).

Mas não para por aí: “Clientes brasileiros que exportam para o mercado americano

começaram a cancelar pedidos dos nossos produtos, pois seus clientes lá suspenderam

as compras para evitar a taxa de 50%. Muitos já anunciaram férias coletivas e paralisaram

suas linhas de produção. Acreditamos que cerca de 90% desses clientes serão seriamente

afetados caso não haja um acordo para redução das tarifas, provocando um efeito em cadeia”.

Na Berneck, produtora de painéis com atuação global e sede em Araucária (PR), já há

cancelamentos de pedidos por parte de clientes americanos. Segundo Daniel Kokot, gerente

de Comércio Exterior da companhia, “a empresa estuda redirecionar o volume até então

focado nos EUA – cerca de 3% do total embarcado pela empresa – para outros mercados,

dentro das possibilidades, e seguiremos com as operações buscando novas oportunidades de

destino”.

A AIMEX — Associação das Indústrias Exportadoras de Madeiras do Estado do Pará,

mais antiga do setor na Amazônia — observa que, embora o mercado norte-americano tenha

sido fundamental para o setor em 2024, com crescimento de 29,9% no valor exportado em

relação a 2023, o cenário mudou drasticamente em 2025. No primeiro semestre deste ano,

as exportações de madeira para os EUA registraram queda expressiva de 25,93%. A

retração está relacionada não apenas às altas taxas hipotecárias que afetam o mercado

 

imobiliário americano, mas principalmente ao anúncio da tarifa de 50% — uma medida que, se

efetivada, compromete a competitividade da madeira paraense em seu principal mercado de

destino.

ABIMÓVEL articula diálogo institucional e defende previsibilidade e cooperação

entre mercados

A ABIMÓVEL já vem articulando diálogos e conexões sobre o assunto com diversas

esferas do poder público e da iniciativa privada desde o início de março, quando

começaram a circular as primeiras especulações sobre o “tarifaço”. Em 15 de julho de 2025,

aliás, a entidade participou da 1a reunião do Comitê Interministerial de Negociação e

Contramedidas Econômicas e Comerciais, em Brasília (DF), propondo e defendendo o

adiamento da vigência da tarifa por 90 dias, a abertura de canal diplomático direto com os EUA,

a recusa a medidas retaliatórias precipitadas e o diálogo com entidades setoriais

norte-americanas integradas à cadeia brasileira.

“A ABIMÓVEL está comprometida em colaborar com propostas, informações e diálogo entre as

partes. Precisamos buscar soluções conciliatórias que levem em conta os impactos reais na

economia e nas parcerias construídas ao longo de anos. Ninguém se beneficia com uma

política comercial que penaliza quem trabalha conquistando mercado com foco, qualidade e

excelência. O que está em jogo é o futuro de milhares de empresas, empregos e famílias

brasileiras”, ressalta Cândida Cervieri, diretora-executiva da ABIMÓVEL.

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Associação Brasileira das Indústrias do Mobiliário – ABIMÓVEL

Assessoria de Imprensa: press@abimovel.com



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