Uns acham normal, outros repudiam, a lei reconhece e a realidade é bem maior do que imaginamos
O Direito não regula sentimentos, mas define as relações com base neles geradas. Demonstrada a convivência entre duas pessoas do mesmo sexo, pública, contínua e duradoura, estabelecida com o objetivo de constituição de família, haverá, por consequência, o reconhecimento de União Homoafetiva como entidade familiar, com a respectiva atribuição dos efeitos jurídicos dela advindos. As uniões entre pessoas do mesmo sexo representam um fato social cada vez mais constante em todo o mundo.
A família contemporânea se afastou do modelo talhado em séculos passados. Antes, os laços familiares eram formados apenas por critérios patrimoniais e biológicos. Hoje, o elemento unificador da família constitucionalizada é o afeto. As famílias se formam através dos vínculos do amor e afeição. Estes sim são verdadeiros elementos solidificadores da unidade familiar.
A família homoafetiva é uma dentre as várias formas de família. Ela parte da união, por vínculo de afeto, entre pessoas de mesmo sexo. Não tem previsão legal, mas também não tem vedação. Aliás, o STF – Supremo Tribunal Federal, a maior Corte de Justiça do Brasil, no julgamento histórico ocorrido em 5 de maio de 2011, reconheceu, por unanimidade de votos (10 x 0), a União Homoafetiva como entidade familiar, conferindo-lhe todos os efeitos jurídicos previstos para União Estável.
Casais de mulheres revelam as particularidades de suas relações
Depois de Daniela Mercury apresentar publicamente sua mulher, Malu Verçosa, a questão da união estável entre homossexuais no Brasil virou tema de discussão e ganhou mais força. A atitude veio no momento em as declarações da cantora Joelma e do pastor Marco Feliciano sobre gays revoltavam grande parte da população e impulsionavam manifestações contra a homofobia.
Depois de anos de muita luta, no dia 14 de maio de 2013, o Conselho Nacional de Justiça (CNJ) finalmente aprovou uma resolução que obriga os cartórios de todo o país a realizar o casamento civil entre pessoas do mesmo sexo.
“É difícil se aceitar gay. Depois, é mais difícil ainda contar para a família e para as pessoas que a gente ama. Mas é necessário. Este processo geralmente começa na adolescência, enquanto ainda acreditamos que o mundo se resume ao nosso umbigo, e com a idade e a maturidade muita gente --e eu me incluo aí-- percebe que esse é um detalhe da nossa personalidade que, em tese, não deveria ser relevante para o resto da sociedade, mas é. E a luta por direitos iguais começa a se fazer necessária. Revelar-se gay para a família, os amigos, os colegas de trabalho, enfim, para todos os círculos sociais, é importante para desmitificar o estigma do que é ser gay, para mostrar que não somos tão minoria assim e que somos humanos, com erros e acertos, como todo mundo”, Ana Angélica Martins, jornalista conhecida como Morango, ex–BBB.
Como qualquer casal heterossexual, um casal gay tem vantagens e desvantagens de acordo com as características da personalidade e do dia a dia de cada um. “Não há diferenças nem para melhor e nem para pior. A vida a dois é determinada por fatores relacionados ao cotidiano e àqueles que são decorrentes do amor, e tudo isso está presente em todos os tipos de relação”, afirma o psicoterapeuta Flávio Gikovate, que lançou recentemente o livro “Sexualidade sem Fronteiras” (MG Editores).
Amor intenso
Amar alguém do mesmo sexo, no entanto, tem peculiaridades como um guarda-roupa dobrado e, no caso delas, duas TPMs. Quando se trata de um casal de mulheres, é comum que a dinâmica da relação seja mais intensa, emocional, carinhosa e tenha mais diálogo.
Para a roteirista Mariana Lima, 32, e a revisora e tradutora Larissa Rocha, 32, que vivem juntas há três anos, a intensidade é um aspecto muito particular do universo feminino. “Somente uma mulher é capaz de explorar e potencializar toda a complexidade de outra mulher”, diz Mariana. “As mulheres também são muito carinhosas e sedutoras”, diz Larissa.
A supervisora de mídias sociais Renata Andreolli, 32, e a supervisora de atendimento Keila Roberta Oliveira, 37, juntas há seis anos, também concordam que a intensidade dos sentimentos é uma peculiaridade evidente. “Sentimos tudo em dobro: o amor, o ódio. São muitos sentimentos misturados. Durante um único dia, qualquer situação, por menor que seja, é urgente. Não existe o amanhã, precisamos do hoje para continuar sonhando e querendo viver a relação”, diz Renata.
Para o psicólogo e psicoterapeuta Klecius Borges, especializado no atendimento a homoafetivos e suas famílias e autor do livro “Muito Além do Arco-Íris” (Edições GLS), características biológicas e culturais relacionadas ao gênero feminino podem se destacar forma duplicada em um relacionamento entre duas mulheres. “Isso pode facilitar ou dificultar o relacionamento, dependendo das pessoas envolvidas”, afirma.
Quando positiva, a intensidade feminina abre espaço para uma forte cumplicidade entre as mulheres. “Conversamos muito. Temos assunto que não acaba mais --sobretudo DRs--, e estamos sempre nos ajudando. Somos muito companheiras”, diz a chef de cozinha Graziela Araújo, 31, que vive há quatro anos com a cantora Luciana Moraes, 29. “Além disso, dá para dividir tudo, coisas comuns da vida de mulher, como o absorvente, o desodorante, as roupas e a maquiagem”, diz.
Em dezembro de 2008, ao receber um prêmio, Jodie Foster agradeceu Cydney Bernard, sua companheira por mais de 15 anos, pela ajuda no cotidiano. Quatro meses depois a relação terminou. Na cerimônia do Globo de Ouro em janeiro de 2013, Jodie Foster emocionou os colegas de trabalho ao comentar sua orientação sexual. “Já saí do armário há milhares de anos. Naqueles dias muito pitorescos, quando uma garota frágil escolhia se abrir com amigos confiáveis, e com a família, e depois, gradualmente, com todo mundo que a conhecia” Leia mais GettyImages
Para a ilustradora Samantha Reis, 31, noiva da estudante de gastronomia e assistente de cozinha Keicy Faria, 25, além do companheirismo e da troca de experiências, a ajuda mútua com as responsabilidades de casa e da família é um ponto importante. Em um casal de mulheres, a tendência é que não exista a antiga e ultrapassada figura do chefe de família, ainda presente entre alguns casais heterossexuais.
É um modelo que contribui para a quebra de paradigmas, abrindo espaço para que novos formatos de relacionamento se firmem na sociedade.
Para Keicy, esse modelo não deve depender do tipo de casal. “Isso tem a ver com pessoas que se amam de verdade, que abraçam todas as dificuldades da convivência e que topam tudo para fazer o casamento dar certo”, diz.
Fidelidade e liberdade sexual
Gikovate acredita que a particularidade mais marcante entre os casais de mulheres esteja relacionada à fidelidade. “As mulheres têm o sexo mais fortemente vinculado ao amor do que os homens e são menos visuais. Sendo assim, tendem para a fidelidade nos relacionamentos afetivos estáveis”, diz.
Para ele, as mulheres lidam melhor com a sexualidade do que o homem. “Elas são mais livres para experimentar as trocas de carícias eróticas com outras mulheres sem que se sintam estigmatizadas, sem que ponham em dúvida sua feminilidade”, afirma. Para a chef de cozinha Graziela, o fato de conhecer bem seu próprio corpo e como alcançar o prazer faz com que a mulher consequentemente saiba do que a outra gosta, o que favorece muito na relação sexual. “Na teoria, sabemos o que e como fazer”, diz ela.
Filhos
Renata tem dois filhos, Henrico,10, e Eduardo, 7, e Keila chegou para completar a família. “São eles que nos mostram, todos os dias, a importância da família”, diz Renata. Segundo ela, embora a escola que seus filhos frequentem aborde diferentes formas de formação familiar, há uma realidade com que precisam lidar: as outras crianças carregam para a sala de aula o preconceito que aprendem dentro de casa.
“Vivemos em uma sociedade impiedosa. Nossos filhos têm acompanhamento para entender melhor o que causa o preconceito e como lidar com ele. Para eles, não há diferença entre relações homoafetivas e heterossexuais. Eles entendem como uma forma de amor, porque é exatamente assim que aprenderam desde o nascimento”.
Enfrentando o preconceito
Aguentar olhares e comentários preconceituosos ao dar alguma manifestação pública de carinho é frequente entre os casais gays. “Percebo isso muitas vezes e incomoda, mas não impomos restrições a nós mesmas porque alguém está olhando”, diz Graziela.
Segundo o psicoterapeuta Klecius Borges, enfrentar o preconceito e sair do armário pode ter um significado ainda mais forte para as mulheres. “Para algumas pode ser apenas o exercício livre de seu desejo e afetividade dirigida a outra mulher. Mas, para outras, pode significar a libertação de um padrão patriarcal de dominação e de submissão ao masculino. É a possibilidade de escolher um amor que atenda a seus verdadeiros desejos e necessidades”, afirma ele.
Por isso, atitudes como a de Daniela Mercury são vistas com admiração por muitas mulheres. “Embora ela não precise provar mais nada para ninguém, o mundo precisa de gente admirada como ela saindo do armário espontaneamente para mostrar que qualquer um pode gostar de pessoas de qualquer sexo, que é algo natural”, diz Mariana.
O amor não escolhe e vence barreiras
Em São Bento do Sul, elas são bastante conhecidas e mantém uma união estável há dois anos e se dizem felizes com as suas decisões. Ambas foram casadas e vamos chamá-las de Maria (52) e Sonia (44), apenas para evitar algumas incompreensões e até situações vexatórias por conta da ignorância de algumas pessoas.
Desde 2012 elas optaram por viver juntas, inclusive morando na mesma casa com a mãe de Maria. Maria diz ter tido uma união conjugal de mais de trinta anos, e que depois de 15 anos o casamento já era praticamente insustentável. “Decidi que não queria mais nenhum relacionamento e fiquei morando com minha mãe. Estava tudo muito bem. Não procurei ninguém, não busquei e de repente conheci a Sonia, saímos para bater papo e aconteceu. A gente se amou instantaneamente. Estamos juntas há 2 anos.
Eu sei que existe uma grande discriminação, da Igreja principalmente, a sociedade em si também, mas eu pago minhas contas, ninguém tem nada com isso, contribuo com tudo que o governo exige e cobra da gente. Minha parceira é de uma família muito boa, foi casada, tem um filho. Ninguém programou isso, aconteceu. Eu não sou doente como certas pessoas costumam dizer. Outros dizem que eu devo procurar certa igreja que frequentando eu serei curada. Não estou doente, sou uma pessoa perfeita e feliz. Eu sempre fui assim e já escutei um monte de besteiras. Então é assim, o que me importa hoje? É a parte que eu vivo com ela, eu sou uma pessoa descente, bastante conhecida em São Bento, tenho minha mãe e meus irmãos que me amam, me respeitam muito.
Para mim foi um sofrimento longo, eu mesma me cobrava e me castigava. Principalmente quando eu era católica, depois deixei de ser, o espiritismo foi uma coisa que me ajudou muito, me trouxe muito esclarecimento. Não acredito em inferno e outras coisas que pregam por aí. Acredito simplesmente em Deus. Se eu tiver que acertar contas vai ser com Ele. Ninguém tem nada com isto. O que mudou em minha vida? Nada. Contimuo sendo a mesma pessoa, mantenho meus amigos. Quem gostava de mim continua gostando. Na verdade é aquela coisa. Eu pensava que ninguém sabia de nada e quando vi todo mundo sabia.
O que foi mais difícil, foi falar com minha mãe, mas já passou, está tudo certo, não tenho problemas, a gente vive muito feliz. Acredito que a Igreja precisa se modernizar, não se vulgarizar. Modernidade também não significa leviandade nem libertinagem. Você tem que amar quem quiser, seja de que sexo for, o negro, o pobre, o branco, a nossa cidade é uma cidade alemã, que é difícil para cacete. Mas, sou daqui e sei tudo isso, enfim passamos por vários momentos difíceis. Confesso que não gosto de parada gay, não tenho nada contra, mas não gosto.
Somos discretas e vivemos nossa vida normalmente. Frequentamos todos os lugares e não damos vexame nem fazemos exposição como certos jovens que muitas vezes os pais nem sabem onde estão. O que está faltando nas famílias hoje é uma boa educação, respeito, amor e Deus. É Deus no coração das pessoas. Se eu gosto de mulher, outra gosta de homem, mulher com mulher, preto com branco, não me interessa. O amor é universal. O que interessa é respeito, coisa que está ficando raro, comentou Maria, a mais falante.
Sônia diz ter sido casada, ter um filho já adulto, só que “eu nunca tinha sido feliz”. O dia que encontrei a Maria foi amor a primeira vista, ali surgiu e não teve nada que pudesse ser contra.
A reação do meu filho foi com estas palavras: “Se a mãe estiver feliz eu também estarei”. Nós temos um comportamento que não nos envergonha nem quem está conosco. Temos visto coisas bem piores por aí, agora mesmo estamos vendo adolescentes num amasso só, é só olhar para o lado.
O BBB que é uma prostituição escancarada. Então não tem porque nos envergonharmos e nos apedrejarem. Não estamos fazendo mal para ninguém. Trabalhamos e zelosamente, vivemos em família e não nos arrependemos de nada. Não temos problemas. Tenho medo é da violência e da ignorância das pessoas, interveio Maria complementando, não damos vexame, não andamos de mãos dadas na rua e evitamos chamar a atenção.
Fazemos nosso trabalho na casa das pessoas, elas nos aceitam e isso se deve ao valor. Não possuímos histórico de manchas em nosso passado e só queremos ser felizes. Somos gente boa, do bem, a opção sexual não quer dizer nada. Nós temos uma base que é a família. Não se justifica nem os heteros ficarem dando show explicito em bancos de praça, restaurante ou qualquer lugar público.
Acredito que a Igreja tem que rever algumas situações, por que ela não deve afastar, precisa atrair. O comportamento, a postura das pessoas é muito importante. Tem que ter valores de família. O que está faltando é um pouco mais de fé, respeito as famílias. Me agonia muito a forma com as pessoas estão vivendo. Tem tanta gente maldosa e a violência contra a nossa escolha. Sobre a adoção Maria e Sonia dizem nunca terem pensado, mas que são favoráveis a quem faz esta opção.
Maria diz para os preconceituosos que olhem para o próprio nariz, para a própria família, sejam felizes, deixem de se preocupar com a casa do vizinho, cuidem das suas vidas.
Felicidade é uma busca constante e não se deve desistir
Karin Maia, (25) um filho com seu ex-companheiro com quem viveu por cerca de 3 anos, natural de Joinville, profissional da área de recursos humanos, em São Bento do Sul desde 2013.
Marcos Viana, (42), natural de Campos Novos, médico nefrologista, em São Bento do há 16 anos. Marcos está em seu terceiro relacionamento, diz ele o último. Do primeiro um filho, (14), do atual um (1,5).
O primeiro casamento durou quatro anos, e a demanda pelo divórcio levou 12 anos. Esta foi sua única união civil e nunca foi casado no religioso.
Em 2012 conheceu Karin que também teve um relacionamento com duração de 3 anos, um filho (2), e também não foi casada nem no religioso e nem no civil.
Ambos trabalhavam na mesma empresa, só que em cidades diferentes e não se conheciam. O encontro foi casual, pois devido a falta de passagem para deslocamento de Karin, para um mesmo rumo, acabou ela pegando uma carona, com Marcos e daí surgiu o primeiro contato.
Ambos foram mordidos não pelo mosquito da dengue, mas, ficaram dengosos. Uma grande amizade durante tempos e que acabou em namoro. Eles vivem juntos desde abril 2013. Ele católico e ela evangélica conversaram e chegaram a conclusão da necessidade de seguir um só caminho, optando então pela Igreja Batista.
Como diz Marcos, esta união deverá ser a última, e para consolidar estes votos dia 21 próximo, estarão recebendo a bênção matrimonial e o casamento civil se dará após a volta da lua de mel. Ambos reconhecem a necessidade de oficializar este matrimônio e com as bênçãos divinas para formação de uma família conceitual. Pai, mãe e filhos. A procura pela definição de uma religião foi exatamente para consolidar esta união e a criação dos filhos com limites, respeito e o temor a Deus, visto que hoje conceitos familiares estão sendo subjugados e destruídos. Conceitos estes que são amplamente defendidos na religião que escolheram, concluiu Marcos.
Luciano e Rafael, tudo começou virtualmente, mas o amor é real
Nossa história se iniciou através das redes sociais , com uma cutucada no facebook...
Depois deste dia começamos a nos falar todos os dias....foram quase dois messes de conversa até marcarmos nosso primeiro encontro. Bom meu nome é Rafael Hoffelder tenho 34 anos sou professor de dança e em meio a isso tudo precisava estar em São Miguel do Oeste para ministrar um curso. Desafiei o Luciano da Silva que mora em Florianópolis a ir comigo para aproveitarmos a viagem para nos conhecer ... Ele tinha que atravessar o estado e me pegar pois eu estava no meio do caminho que era a cidade de Joaçaba.
Marcamos o local em Joaçaba para nosso encontro... Já sabia como ele era pois o mundo da internet permite isso, mas quando olhei pessoalmente olhos nos olhos eu apenas mentalmente disse assim: obrigado tenho certeza que iremos ser muito felizes...
A viagem foi bacana conversamos muito mas não podia esconder que ambos estávamos muito nervosos afinal era o primeiro contato, olho no olho.
Depois deste final de semana eu sabia e sentia nele o que ambos queríamos....a gente tinha se escolhido e sabíamos que não seria a distância que nos separava naquele momento que iria atrapalhar o início de uma história feliz.
Era no mês de junho, mês de muito frio e mesmo com toda a distância que nos separava a gente se via todos os finais de semana...entre milhões de mensagem via celular, facebook e quase sinal de fumaça para suprir a ausência um do outro o destino quis nos unir.
Já se passaram três anos de nossa história e um ano que estamos morando juntos aqui em Florianópolis.
A vida de casado é uma entrega uma doação de ambos, mas quando existe amor e este é verdadeiro, supre todas as surpresas e adversidades da vida.
Somos muito caseiros e gostamos de receber amigos em casa para jogar conversa fora, ou desfrutar de um jantar.
Nunca sentimos um olhar de preconceito em nossa relação apenas pessoas curiosas que ainda por verem dois homens juntos querem saber como isso aconteceu... Nossa resposta é sempre a mesma: O amor nos uniu. Este é um pequeno relato da opção e convivência de Luciano e Rafael. Luciano atua na direção da churrascaria Ataliba e Rafael atua como coreógrafo da escola Kaiorra de BC.
Casamento entre pessoas do mesmo sexo no Brasil
O reconhecimento de casamento entre pessoas do mesmo sexo no Brasil como entidade familiar, por analogia à união estável, foi declarado possível pelo Supremo Tribunal Federal (STF) em 5 de maio de 2011 no julgamento conjunto da Ação Direta de Inconstitucionalidade (ADI) nº 4277, proposta pela Procuradoria-Geral da República, e da Arguição de Descumprimento de Preceito Fundamental (ADPF) nº 132, apresentada pelo governador do estado do Rio de Janeiro. Desta forma, no Brasil, são reconhecidos às uniões estáveis homoafetivas todos os direitos conferidos às uniões estáveis entre um homem e uma mulher.
Desde então, as uniões do mesmo sexo utilizam-se das disposições de diversos princípios constitucionais. A coabitação brasileira (uniões não-registradas) é uma entidade real reconhecida juridicamente, que concede aos parceiros direitos e deveres semelhantes ao casamento, como o direito à adoção assim como todos os benefícios e regras do casamento, como pensões, herança fiscal, imposto de renda, segurança social, benefícios de saúde, imigração, propriedade conjunta, hospital e visitação na prisão, além de fertilização in vitro e barriga de aluguel, etc.1 Em 2011, o Supremo Tribunal Federal (STF) decidiu que casais do mesmo sexo têm o direito legal a esses uniões e estabeleceu uma base jurídica para uma futura legislação sobre os direitos matrimoniais das uniões de mesmo sexo.
No dia 14 de maio de 2013 o Conselho Nacional de Justiça (CNJ) aprovou uma resolução que obriga todos os cartórios do país a celebrar casamentos entre pessoas do mesmo sexo. O presidente do CNJ afirmou que a resolução remove “obstáculos administrativos à efetivação” da decisão do Supremo, em 2011.2 No primeiro ano de vigência na cidade de São Paulo, onde a obrigação já existia desde final de fevereiro de 2013, foram realizados 701 casamentos.
O papa Francisco e as reformas na Igreja Católica
Tudo leva a crer que serão feitas grandes mudanças na estrutura da Cúria Romana ainda neste ano.
Com a Igreja Católica e o mundo sacudidos por este furacão promovido pelo Papa Francisco, é natural nos perguntarmos sobre o que vem por aí. E o Papa já deu indicações precisas em seu documento, a EvangeliiGaudium (Alegria do Evangelho).
O amor em primeiro lugar
A coisa mais importante para Francisco é o amor gratuito de Deus por nós. E a pessoa que se sabe muito amada é levada naturalmente a amar muito. Quem sabe que foi amado de forma gratuita, sem ter necessidade de dar nada em troca (e quantos de nós não dariam a vida para viver um amor assim!) não apenas ama muito, mas ama a todos. Se vocês querem ser alegres, felizes – diz o Papa – se abram ao amor gratuito e imenso de Deus – e, se fizerem isso, não apenas compreenderão que Deus existe e é bom, mas também se sentirão levados a amar a todos.
O Papa está disposto a pôr todo o resto em questão para que cada um viva esta experiência de amor. Isto não implica abandonar as normas do catolicismo, mas sim colocá-las no devido lugar – isto é, a serviço do amor, e não acima dele. Todas estas questões que sempre atraem a curiosidade e ocupam espaço na mídia são secundárias diante do amor de Deus. Mas, como atraem e incomodam, vamos a elas.
O papa vai mudar radicalmente a estrutura do Vaticano
Tudo leva a crer que serão feitas grandes mudanças na estrutura da Cúria Romana. O que já está claro é que haverá um aprimoramento e fortalecimento dos órgãos de gestão e controle financeiro do Vaticano e que as mudanças virão respaldadas pelas propostas do conselho de oito cardeais que Francisco instituiu para assessorá-lo nesta e em outras questões.
O problema não é que a cúpula da Igreja está imersa num mar de lama, corrupção e ineficiência – como pensamos ao ler certos artigos. Muita coisa boa e bem feita acontece no Vaticano, porém a estrutura está “inchada”, difícil de administrar e controlar, criando muitos órgãos pouco necessários ou ineficientes. Além disso, o papa tem deixado claro que espera uma Igreja que dê um exemplo maior de pobreza e humildade. Por isso o processo de reforma deverá reduzir a estrutura, tornando-a mais “pobre”, mais eficiente e mais próxima das pessoas.
E os escândalos de pedofilia e a condenação dos padres pedófilos? Esta questão, no nível de responsabilidade do Papa e do Vaticano, já foi totalmente resolvida por Bento XVI. A Igreja indica “tolerância zero” para os religiosos pedófilos e considera que eles devem responder por seus crimes junto à Justiça de seus países, como qualquer cidadão. Eventuais problemas que ainda possam surgir referem-se agora à administração local destes casos, quando eles se tornam conhecidos.
O celibato dos padres e a ordenação das mulheres casadas
O celibato não é constitutivo do sacerdócio na Igreja Católica, ainda que a opção pelo celibato – isto é, não se casar para entregar-se mais a Deus – sempre tenha havido no cristianismo. A obrigação do celibato para todos os padres vem do século XII e aconteceu porque se percebeu que os padres celibatários desempenhavam melhor suas funções e praticavam de forma mais pura a imitação de Cristo.
Ainda hoje os documentos da Igreja têm mantido esta posição em relação ao sacerdócio e ao celibato. Isso não implica a impossibilidade de se vir a aceitar, no futuro, que haja padres casados, se esta opção for boa para a vida da Igreja, o que não quer dizer que celibato para os padres esteja obrigatoriamente acabando.
As declarações das autoridades eclesiais – inclusive próximas ao Papa Francisco – vão todas neste sentido. Além disso, é bom notar que a tendência mais provável seria a de aceitar a ordenação de homens casados (como acontece nas Igrejas Católicas Orientais) e não de liberar os padres da obrigação do celibato, cedendo a uma pressão de grupos que fazem “lobby” neste sentido.
A ordenação de mulheres foi claramente negada pelo Papa Francisco em seu último documento. Neste sentido, o Papa abriu uma porta de outro tipo, reconhecendo que é necessário se fazer uma reflexão sobre o papel da mulher na Igreja. Na prática, ao longo da história, muitas mulheres agiram com autoridade dentro da Igreja, influenciando Papas e redefinindo os rumos da história. Trata-se de um papel próprio, que lhes cabe e que não se confunde com o sacerdócio, mas que deve ser estudado e reconhecido de forma adequada, segundo as reflexões de Francisco.
A Igreja – e o Papa Francisco – considera o sacerdócio como um serviço ao qual se é chamado e não como um direito a ser reivindicado. Pensar o sacerdócio como direito poderia implicar em por o padre numa posição de superioridade frente aos demais católicos, deturpando a sua missão. Daí que as pressões para permitir que os padres se casem ou que as mulheres sejam ordenadas tende a ter, na Igreja, o efeito contrário ao esperado: quanto mais pressão, menor a chance de alguma coisa acontecer nesta linha.
Com relação aos casados em segunda união...
Um tema particularmente delicado é o da comunhão dos casados em segunda união. Atenção: os divorciados que não contraem um segundo matrimônio ou aqueles que tiveram seu casamento reconhecido como nulo pela Igreja podem comungar! Mas a Igreja considera que os divorciados que se casam novamente estão numa situação de pecado que não lhes permite tomar a comunhão.
Ora, vem argumentando o Papa, mas Cristo veio para os pecadores e não para os perfeitos (que, aliás, não existem – todos somos pecadores). Então a Igreja existe também – ou principalmente – para os casados em segunda união, para os que não estão vivendo segundo as normas – mas que desejam encontrar o amor de Deus. E aí, pergunta o Papa, o que estamos fazendo para acolher a estas pessoas? Afinal, Cristo disse que haveria mais alegria no Reino dos Céus por um pecador que se arrependa que por 99 justos que não necessitam de arrependimento.
Nesta polêmica da comunhão aos casados em segunda união, o Papa Francisco tem dados duas mensagens claras: (1) se você ESTÁ casado em segunda união, a Igreja também é para você, venha e ocupe seu lugar; (2) se você NÃO ESTÁ casado em segunda união, deve amar e ajudar aos casados em segunda união e não ter uma posição moralista que os afasta da Igreja.
... e aos homossexuais
Com relação aos homossexuais, o papa aplica um velho princípio cristão: a Igreja condena o pecado, mas ama o pecador. E não nos esqueçamos de que somos todos cheios de pecados – de forma que não se trata aqui de ficar procurando se justificar dizendo que o pecado do outro é maior que o nosso. Em seu documento “EvangeliiGaudium”, o grande pecado denunciado pelo Papa é explorar o pobre, colocar o lucro acima da pessoa!
Francisco deixa claro que defenderá o direito da Igreja de dar um juízo sobre o que é mais adequado para a pessoa e que condena o que chama de “relativismo moral”. Mas também deixa claro que o mais importante é que cada um se sinta amado e acolhido por Deus, seja heterossexual ou homossexual. Assim, os homossexuais – e todos os que hoje se sentem afastados da Igreja – podem ter certeza que toda a comunidade católica está sendo chamada a acolhê-los e a estar próxima deles.