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Câmbio e dependência argentina fazem gastos de turistas estrangeiros no Brasil caírem, mesmo com rec

Thursday, 20 de August de 2026

Câmbio e dependência argentina fazem gastos de turistas estrangeiros no Brasil caírem, mesmo com recorde de visitas

 

País recebeu 5,2 milhões de visitantes do exterior no primeiro semestre, dos quais um terço veio da Argentina; gastos médios, por sua vez, caíram pelo terceiro ano seguido

 

O Brasil segue “bombando” no exterior. Segundo dados da Agência Brasileira de Promoção Internacional do Turismo (Embratur), só no primeiro semestre mais de 5,26 milhões de estrangeiros entraram no País, quase o recorde de 2025, quando 5,33 milhões de turistas de fora visitaram o Brasil no mesmo período.

 

Por outro lado, um estudo da Federação do Comércio de Bens, Serviços e Turismo do Estado de São Paulo (FecomercioSP) realizado com base nos dados do Banco Central (BC) apontam para um desafio do setor: o gasto médio por turista está caindo ano a ano. 

 

Para se ter uma ideia, em 2024, o volume médio das despesas dos estrangeiros visitando o Brasil no primeiro semestre foi de R$ 6.447. Já neste ano, o montante foi de R$ 5.625. A queda, em dois anos, foi de 12,75% [tabela 1].

 

Isso se vê, também, quando a conta é feita em dólares. Dados de 2022 mostram um gasto médio de US$ 1.713 por turista. O volume caiu para US$ 989 no ano passado e, agora, se recuperou (US$ 1.085), mas ainda abaixo da média pré-pandemia. A retração de 6% entre 2018 e 2026 fica mais evidente considerando que as chegadas subiram 40% no mesmo período.

 

Em outras palavras, tem mais gente do exterior chegando ao Brasil, mas o País não tem conseguido transformar isso em mais receitas.

[TABELA 1]

Turismo internacional no Brasil (janeiro a junho — 2018–2026)

Fontes: Embratur/Banco Central/FecomercioSP

Na leitura da FecomercioSP, alguns fatores explicam esse fenômeno. O primeiro é o câmbio real. Em 2018, a média da cotação da moeda em comparação com o real foi de R$ 3,95, enquanto, em 2025, foi de R$ 5,83. Isso significa que a moeda brasileira perdeu um terço do seu valor nesse intervalo, cujo efeito é tornar o Brasil mais barato para o Turismo internacional. Mais gente chega e, ao mesmo tempo, cai o valor real de consumo no mercado nacional.

 

Aqui, vale dizer, a Federação usa o conceito de câmbio real, criado pela Entidade para mensurar com mais precisão a variação do dólar frente ao real. Isso é feito corrigindo a cotação pelos indicadores de preços dos dois países: o Consumer Price Index (CPI), dos Estados Unidos, e o IPCA, do IBGE, do Brasil.

 

O segundo fator é o que pode ser chamado de “dependência argentina”. Hoje, mais de um terço (38%) dos turistas que chegam ao Brasil é do país vizinho — e eles já responderam por metade do Turismo internacional (48% em 2018). Para a Federação, esse fenômeno faz com que o setor dependa mais da capacidade de consumo dos visitantes argentinos, que, por sua vez, lidam com renda volátil no contexto local, em meio a um ajuste fiscal, e cujo perfil é de gasto médio mais baixo. Além disso, quando o câmbio real fica menos favorável, dificulta que o turista estrangeiro por excelência no Brasil (o argentino) gaste mais aqui.

 

O que fazer?

Ainda de acordo com a FecomercioSP, há alguns problemas estruturais em jogo nesse contexto. Um deles é o fato de o Brasil não ser um país barato para os turistas globais. A carga tributária altíssima, os juros elevados que elevam a capacidade de captar recursos e os custos altos de manutenção de negócios se somam à ausência de mecanismos de devolução de alguns tributos a visitantes, sobretudo o tax-free, muito utilizado no mundo.

 

Isso é ainda mais relevante considerando que há espaço para criar mais itens que marcam a identidade do País, como roupas, joias, artesanato e cosméticos em geral. Como os serviços também são caros, o gasto médio é afetado por uma tentativa dos turistas em controlá-los. Outro fator são os gargalos logísticos. Nem todas as regiões contam com voos diretos, alguns aeroportos ainda são problemáticos, não há linhas ferroviárias e, em alguns locais centrais — como Rio de Janeiro e São Paulo —, passagens aéreas são caras.

 

Há, ainda, entraves próprios ao Turismo brasileiro; o principal é a barreira da diversificação do perfil de turistas. Enquanto países como Chile e Argentina dominam a lista de chegadas, pessoas de outros países — alguns com renda mais alta —, inclusive, estão vindo menos ao Brasil. No primeiro semestre, o volume de americanos que visitaram o País caiu 3,5%, por exemplo. Isso se deu depois que o governo brasileiro decidiu exigir visto para a entrada de quem vem dos Estados Unidos. A FecomercioSP acredita que a medida foi um erro, porque esse público tem estadia mais longa e gasto médio mais alto. 

 

No geral, o trabalho da Embratur tem sido promissor. As políticas e as ações de promoção do Brasil no exterior que a agência desenvolveu são louváveis e já contam com resultados positivos e relevantes. Contudo, é fato que o crescimento de turistas no País se deve, parcialmente, a um câmbio favorável. 

 

O obstáculo é produzir uma agenda coordenada com outras áreas para oferecer uma experiência turística mais ampla. Isso inclui mudanças nos impostos, conectividade aérea, flexibilização na burocracia dos vistos e, por fim, um meio de estimular mercados de maior valor (negócios, por exemplo) e de trazer mais gente de destinos mais distantes (que gastam mais e ficam mais tempo em território nacional).

 

Sobre a FecomercioSP

Reúne líderes empresariais, especialistas e consultores para fomentar o desenvolvimento do empreendedorismo. Em conjunto com o governo, mobiliza-se pela desburocratização e pela modernização, desenvolve soluções, elabora pesquisas e disponibiliza conteúdo prático sobre as questões que afetam a vida do empreendedor. Representa 1,8 milhão de empresários, que respondem por quase 10% do Produto Interno Bruto (PIB) brasileiro e geram em torno de 10 milhões de empregos.



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