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Estados Unidos e as organizações terroristas brasileiras

Friday, 05 de June de 2026

Estados Unidos e as organizações terroristas brasileiras

Depois de muitas ameaças, enfim, os Estados Unidos classificaram as duas principais organizações do crime organizado brasileiro como terroristas. Isso causou um alvoroço no Brasil político.

Especialistas de toda ordem passaram a ser ouvidos por emissoras de televisão, rádios, plataformas de streaming, jornais, revistas e demais veículos de comunicação, indignados com essa interferência americana. As alegações fundamentam-se, sobretudo, no medo de que, uma vez classificadas como terroristas, essas organizações sirvam de justificativa para que os Estados Unidos adentrem o território nacional, prendam seus integrantes e os levem para aquele país.

O Brasil, que não consegue prender ninguém do alto comando das facções, ficou assustado com a possibilidade de vê-los presos e levados por um país estrangeiro, como se fizesse diferença para quem vive subjugado por essas organizações se a retirada dos criminosos e a libertação dessas vítimas viessem de forças nacionais ou internacionais.

Outro argumento apresentado é o da possível interferência econômica ou financeira. Nunca fica muito claro o motivo dessa interferência. Trata-se de um argumento vazio, utilizado para reforçar a defesa de que não se deve atribuir a classificação de terroristas a essas organizações quase “filantrópicas”, segundo alguns discursos.

Não se debruçam sequer sobre uma comparação superficial dos prejuízos financeiros causados por elas ao Estado brasileiro. Essas organizações não pagam impostos sobre os serviços que prestam em substituição aos comerciantes regulares. Não recolhem um centavo de tributo pelo gás, pela internet ou pelos comércios alugados de forma forçada, que tomaram para si sem qualquer resistência efetiva do Estado brasileiro.

E a unanimidade fixa-se na teoria da defesa da soberania nacional. Argumenta-se que o Estado brasileiro não aceita nenhuma interferência estrangeira, mas divide tranquilamente essa soberania com as organizações criminosas, que talvez já dominem mais território do que o próprio Estado brasileiro.

O procurador Lincoln Gakiya afirmou recentemente que mais de 30 milhões de pessoas, no Brasil, vivem sob o jugo dessas organizações criminosas.

O Primeiro Comando da Capital (PCC) teve início com oito membros em uma cadeia pública, instituição sob responsabilidade do Estado, número menor do que o de países em que está infiltrado atualmente. Já se passaram três décadas. Há vinte anos, em 2006, essa organização já demonstrava sua força ao colocar o governo de São Paulo de joelhos, quando paralisou a capital e quase paralisou todo o Estado. Está tão infiltrada nos Poderes Públicos que se paga uma passagem e não se sabe se parte do valor vai para o PCC; coloca-se gasolina no carro e não se sabe se se está financiando o PCC; compra-se uma casa e não há certeza de que ela não esteja vinculada aos interesses da organização. Compra-se e vende-se até sentença judicial, sem que se saiba se o PCC não está por trás desse comércio extremamente rentável. Faz-se uma chamada para a Polícia Militar ou registra-se uma ocorrência em uma delegacia com o receio de quantos agentes possam estar a serviço do PCC.

O Comando Vermelho domina o Estado do Rio de Janeiro há ainda mais tempo e de forma mais abrangente do que o PCC domina São Paulo.

Um dia antes de os Estados Unidos classificarem o Comando Vermelho (CV) e o Primeiro Comando da Capital (PCC) como organizações terroristas, em entrevista a uma jornalista da GloboNews, o governador do Rio de Janeiro afirmou que não há solução para a criminalidade e para o domínio das comunidades pelas facções, ao declarar que as ruas estreitas impossibilitam as ações policiais de combate. Também repetiu o discurso adotado por autoridades há muitas décadas, segundo o qual são necessárias ações de infraestrutura, saúde e a famosa presença social do Estado. No entanto, as populações dessas comunidades só aumentam com o passar dos anos, enquanto o discurso permanece o mesmo. Reitera-se, ainda, que apenas ações policiais não resolverão o problema. Isso equivale a afirmar que as populações dos territórios dominados já não podem sequer alimentar esperança, pois as ações policiais só ocorrerão quando houver permissão das facções.

Como o maior temor do Brasil seria uma interferência na soberania nacional, tão exaltada quanto compartilhada com essas organizações, as autoridades brasileiras sempre sustentaram que os comandantes dessas facções estariam na Faria Lima e em condomínios de luxo. Portanto, se houver a busca por esses líderes em território nacional, os moradores das comunidades estariam isentos de qualquer risco.

Pode-se afirmar, com absoluta tranquilidade, que a inércia das autoridades brasileiras pariu essas organizações e as quase cem facções criminosas atualmente em atividade no país. Elas convivem e atuam livremente, tanto que, em operações policiais, prendem-se mais de cem integrantes de classes mais humildes, mas quase nunca prendem os chefes, que sempre conseguem fugir. Conseguem mesmo fugir?

As autoridades brasileiras assistem inertes, desde 1997, a mais de 40 mil assassinatos por ano, ininterruptamente, sem reação efetiva. Nem do Executivo, muito menos do Legislativo e menos ainda do Judiciário, que apresenta baixíssimo índice de esclarecimento de homicídios e demora uma eternidade para julgar os processos. Ainda assim, há autoridades que se sentem em condições de criticar genocídios em outros países.

Não se sabe se essa mudança de classificação trará algum benefício concreto, mas, para poucos observadores, pior do que está a situação dificilmente poderá ficar.

 

Pedro Cardoso da Costa

Interlagos – SP

"NÃO HÁ DEMOCRACIA ONDE O VOTO É OBRIGATÓRIO"


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