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Desafios da liderança e do associativismo

Segunda, 17 de janeiro de 2022

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Admiro as pessoas que se dispõe a liderar organizações associativas de interesse coletivo, aquelas que dão espessura ao tecido social e criam espaços para o exercício da cidadania. Essas pessoas –  cada vez mais raras – são movidas pelo genuíno impulso em contribuir na solução de questões afetas a uma categoria profissional, a uma causa, a uma coletividade. Elas dão o que têm de mais valioso – o seu tempo e o seu talento. Reduzem o tempo dedicado à família e ao trabalho para uma missão comumente espinhosa, tratar de problemas dos outros e, inexoravelmente, expor-se à incompreensão e à crítica dos outros, os geralmente omissos e intolerantes.

         A importância e a raridade desses líderes são percebidas a cada processo eleitoral pelo qual é necessário renovar os quadros de direção dessas organizações humanas. Isso decorre da debilidade da nossa cultura associativista – ou exatamente a falta de uma cultura fulcrada no associativismo. Essa é uma carência atroz em nossas instituições e se manifesta em todos os setores da vida em sociedade. Ela está presente nas entidades de natureza econômica (empresarial) ou de natureza profissional (classista) e tem o poder deletério de minar os alicerces das mais atuantes e operosas entidades.

         Cultura associativista é a capacidade que o indivíduo tem ou deveria ter de compreender a importância das organizações humanas – baseadas na livre associação – para a construção de uma sociedade livre, pluralista, democrática, fundada no estado de direito e na igualdade de oportunidades. É a habilidade de abstrair que as instituições associativas têm um papel muito mais importante e essencial do que proporcionar benefícios materiais, objetivos e concretos para cada um dos associados. Sim, isso também é necessário, mas a postulação em favor dos superiores interesses da coletividade é muito mais fundamental.

         Por isso, ao participar de uma associação, sindicato, cooperativa, clube etc., mesmo que não tenha benefícios concretos no curto prazo, é imperioso reconhecer e valorizar que a entidade à qual participamos está cumprindo um desiderato maior ao defender em tese e na prática os princípios da liberdade e da justiça.

         O cooperativismo, que representa uma forma evoluída de associativismo, ostenta resultados sociais e econômicos mensuráveis que se refletem na elevação da qualidade de vida de todos aqueles que dela participam – os cooperados. Baseadas em sete princípios - linhas orientadoras através das quais levam os seus valores à prática – as cooperativas se transformaram em eficientes instrumentos de desenvolvimento das comunidades onde atuam: adesão voluntária e livre, gestão democrática, participação econômica dos membros, autonomia e independência, educação, formação e informação, intercooperação, interesse pela comunidade.

         Em face dessas constatações, é melancólica e perturbadora a freqüência com que as pessoas se desligam ou se recusam a participar de associações. Em razão do exercício de atividade profissional de comunicação corporativa no âmbito das entidades, testemunho, amiúde, empresários, profissionais e outros agentes econômicos desligando-se de suas entidades com justificativas como “não recebo nenhum benefício” ou “a entidade não oferece nada” e outras demonstrações de incultura associativista.

         Esses beócios desconhecem que, quando suas instituições reivindicam, protestam, denunciam ou defendem ações e projetos em áreas sensíveis como segurança pública, infraestruturação regional, duplicação de rodovias, implantação de ferrovias, formação profissional gratuita, redução de carga tributária, proteção ambiental, celeridade da Justiça, programas habitacionais, etc., etc., estão defendendo suas vidas, suas empresas, suas famílias.

         A associação de homens, talentos e capitais é uma exitosa estratégia milenar que, nos primórdios, permitiu a sobrevivência dos grupos sociais e, hodiernamente, garante a eficiência e a longevidade dos agentes econômicos em cenários agressivos e competitivos, seja no mercado doméstico ou no mercado internacional. Nas nações evoluídas, onde se consolidou e viceja o cooperativismo, a prática da cooperação e do associativismo encontrou centenas de fórmulas, envolvendo pessoas, empresas e instituições em criativas parcerias e com benignos resultados.

         Para o quadro brasileiro, soa promissora e alvissareira a decisão tomada por muitas cooperativas e sindicatos de exigir,  aos candidatos ao ingresso no quadro social, a participação em curso básico de cooperativismo ou sindicalismo visando aprofundar a compreensão sobre princípios, deveres e direitos. Essa iniciativa é basilar na cristalização de uma cultura associativista, pois,  em seu rastro, contribui para a formação da cidadania.



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