Advogado
Desde os anos 90, logo após a promulgação da atual constituição, com as garantias da magna carta permitindo a plena liberdade político partidária, propostas ideológicas de extrema esquerda assustaram e preocuparam aqueles que conheciam as mazelas dos regimes socialistas e comunistas, principalmente pela forma de governo que se sustentava a base de sistemas autoritários. Inclusive as amargas experiências então recentes do facismo e nazismo, superadas, mas a evolução do que ocorreu no Vietnã, Coreia do Norte, Albânia, Cuba e os componentes da União das Repúblicas Socialistas Soviéticas. A sociedade brasileira revelava antipatia por propostas radicais, mas a proposta política do Partido dos Trabalhadores alavancada pela revanche contra o regime militar e outros apelos de ordem social escondiam uma proposta ideológica de esquerda apoiada por todos os simpatizantes dos declinados países, neles incluídos o clero e o utópico sonho das elites culturais. Viveríamos a mudança radical no discurso camuflado do PT. Aparentemente sim, mas com a eleição de Lula, ruíram todas as perspectivas ideológicas de esquerda. A política econômica e o perfil de nacionalista exacerbado com o propósito estatizante não se confirmou. Já vivíamos a derrocada do grande império Russo, falido e desmoralizado. Uma Coréia pobre, no alinhamento do regime de Cuba, ambas apodrecendo à sobra de discursos revolucionários e populistas contribuíram para que não houvesse a virada temida. Todavia, o encanto com o poder e a possibilidade de assaltar o estado e estatais pelos novos donos do poder, corromperam as ideologias definitivamente esquecidas.
FARRAPOS EM DISCURSOS
Sem ideologia política, sem proposta de governo, com seus principais líderes na cadeia, com uma presidente literalmente disléxica para as mais elementares manifestações cotidianas, perdida entre interesses mortais de opositores e aliados de sua própria base, sobre o discurso louco e desvairado do lutador nocauteado. A cena é de filme de terror, num salve-se quem puder. A presidente Dilma Rousseff colocou na cabeça que está vivendo uma tentativa de golpe. Encasquetou que seus opositores querem usar a crise para chegar ao poder. Acredita que, na democracia, o governante tem o direito de cumprir o mandato para o qual foi eleito, mesmo que esteja conduzindo o país ao caos. Seguindo o raciocínio de Dilma, o ex-presidente Collor foi alvo de um “golpe” perpetrado por uma oposição raivosa e antidemocrática, à qual sobressaía o PT. A incoerência impera. A privatização é satanizada pelos seus contrários na cúpula do governo, por questões meramente ideológicas que não se sustentam no mundo moderno. O governo erra sistematicamente, e tem dificuldade de reconhecer isso. A articulação da presidente não admite cortar na própria carne e enxergar soluções diferentes da cartilha na qual ela se embriaga. Nem seus limitados acertos, exatamente como fez com os aeroportos, que estão funcionando a contento. E para tumultuar tudo, gravita igual um fantasma o ex-presidente Lula, atabalhoado, querendo agir antes de ser preso, opondo-se aos tênues propósitos de recuperação da economia, propondo mais populismo barato e inconsequente.
ÉTICA E RELIGIÃO
Argumento comum de um cristão, e certamente de religiosos da outra fé, sempre em nome de Deus, é o apelo final de que muito se justifica pela religião, principalmente quando são lembrados os princípios éticos, morais e de honestidade. Claro que é uma boa defesa. E não se pode esquecer jamais da grande contribuição que a Igreja, como fenômeno social, deu ao desenvolvimento cultural com suas escolas e universidades. Entretanto, a par das construções do desenvolvimento educacional, no afã de angariar fieis, criam mirabolantes crendices em atributos divinos, para ilusórias soluções de problemas, conflitos e aflições, enganando a fé pública sob o discurso de dogmas e mistérios, absolutamente insustentáveis ao menor questionamento da razão, do bom senso e, sim, da ética. Da civilidade elementar espera-se transparência, verdade, segurança e coerência lógica. Este é o ponto delicado sobre a confiança que muitas instituições religiosas e de outras vertentes místicas vendem como elementos de “salvação”. Outro elemento de apoio às justificativas de divindades e suas influências sobre os destinos da humanidade, que aliás, sempre acompanharam o homem com sua história a milhares de anos, foi a devoção a um ser supremo, sempre intermediado por espertos humanos que distorcendo a filosofia justificável, exploram a ignorância e submetendo seus súditos a prejuízos pessoais de toda ordem. Mesmo que a ética não seja respeitada.
PROTOCOLO
A organização social e política exige a formalidade de rituais para o exercício das atividades dos líderes no comando da comunidade. Seja ela de legítima conquista por procedimentos democráticos, ou mesmo por tomada de poder por meios pouco ortodoxos. Quem comanda é investido de poderes e deve conduzi-los de forma distinta dos comandados. São os rituais de atos públicos. Isto ocorre em cultos religiosos, nos atos judiciais singulares ou coletivos. O ambiente é preparado, as vestimentas são apropriadas. No meio político deveria ser a mesma coisa. Abre-se o ato, destaca-se a autoridade máxima, confere-se-lhe a palavra e o comando dos procedimentos, em respeito a organização. Neste particular ocorrem os deslizes. Delegado ao encarregado do protocolo, seja de governo por suas secretarias inócuas e perdulárias, seja das prefeituras, típicas do interior menos esclarecido, inserem-se estranhos em registros de autoridades. Na solenidade do desfile alusivo ao aniversário da cidade de São Bento, fizeram registros legítimos de autoridades, mas rechearam com impróprias referências de servidores comuns da administração, como o do “assessor” de gabinete. Falta indicar o nome do ajudante do auxiliar da copiadora do setor de arquivo morto. Se presente.