Para o economista João Victor da Silva, reação dos mercados reflete expectativa de ajuste fiscal, mas real mais forte pode reduzir a competitividade dos exportadores
O dólar caiu abaixo de R$ 5 nesta segunda-feira (5), no primeiro pregão após o primeiro turno das eleições presidenciais. Às 9h19, a moeda americana recuava 4,65%, cotada a R$ 4,9746 na venda, segundo a Reuters. Na sexta-feira (2), havia encerrado a sessão a R$ 5,2173. Os valores correspondem às negociações da manhã, com o mercado ainda aberto.
A reação também apareceu na Bolsa. Às 10h30, o Ibovespa avançava 7,71%, aos 206.942 pontos. O índice ultrapassou pela primeira vez a marca dos 200 mil pontos, enquanto os investidores revisavam suas expectativas após o resultado das urnas.
O senador Flávio Bolsonaro (PL) terminou o primeiro turno das eleições deste domingo (4) com 47,03% dos votos válidos, somando 56.104.503 votos. O presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT) recebeu 45,16%, com 53.879.538 votos. A diferença foi de aproximadamente 2,2 milhões de votos. Os dois disputarão o segundo turno em 25 de outubro.
Para o economista e analista de mercado da Orsitec, João Victor da Silva, a queda do dólar deve ser observada junto à valorização das ações e ao recuo dos juros futuros. Na avaliação dele, os movimentos refletem a expectativa de uma mudança na condução econômica com a provável eleição do candidato do PL.
Segundo João Victor, os investidores passaram a considerar uma possibilidade maior de ajuste das contas públicas, revisão das regras fiscais e adoção de medidas voltadas ao crescimento e à produtividade.
“Diferentemente do Lula, que teve uma forte expansão do gasto público, uma deterioração das regras fiscais, o time que o Flávio tem montado para a economia muda essa expectativa de termos um ajuste fiscal”, avalia.
“Essas mudanças são muito mais eventos iniciais, que estão respondendo a uma mudança de expectativa, do que mudanças estruturais”, ressalta.
João Victor destaca também a queda da curva de juros, que reúne as taxas negociadas pelo mercado para diferentes prazos. O movimento não significa, por si só, uma redução da Selic pelo Banco Central.
Essa mudança pode influenciar o valor dos títulos públicos. Quando as taxas de mercado caem, o preço dos títulos prefixados já emitidos tende a subir. A oscilação faz parte da marcação a mercado, mecanismo que atualiza o valor dos papéis antes do vencimento.
Na avaliação do economista, uma eventual melhora na confiança sobre as contas públicas poderia favorecer uma redução mais rápida dos juros no Brasil. Essa perspectiva depende do resultado do segundo turno e das medidas econômicas que vierem a ser adotadas.
O dólar mais baixo também traz desafios. João Victor alerta que uma valorização acentuada do real pode reduzir a competitividade de setores orientados à exportação, como o agronegócio e parte da indústria.
Empresas que recebem em dólar e mantêm despesas em reais podem enfrentar pressão sobre suas margens, porque a receita obtida no exterior passa a render menos na conversão para a moeda brasileira. O impacto varia conforme os custos, os contratos e a proteção cambial de cada negócio.
Na análise do economista, uma eventual redução dos juros brasileiros poderia moderar a valorização do real nos próximos meses.
“Essa é a minha expectativa, que o câmbio não permaneça tão forte como a gente viu hoje logo após o resultado da eleição”, afirma.