Getúlio Vargas: o sangue que fundou a Nação soberana.
Em 24 de agosto de 1954, o Brasil foi sacudido por um gesto extremo que transformou
para sempre a história nacional: Getúlio Dornelles Vargas, presidente da República, no
auge de uma crise política alimentada por interesses externos e internos contrários ao
povo, decidiu sair da vida para entrar na História. Seu suicídio, no Palácio do Catete,
não foi um ato de fraqueza, mas sim a derradeira forma de resistência de um estadista
que compreendeu, como nenhum outro, a luta de classes e a necessidade de arbitrá-la
em favor do trabalhador e da soberania nacional.
A Carta Testamento, documento de rara grandeza moral, ecoa ainda hoje como um grito
de independência e dignidade. Vargas denunciou, com clareza profética, a ofensiva dos
grupos econômicos internacionais aliados a elites locais dispostas a manter o país em
condição de subserviência. Denunciou a espoliação do trabalhador, a sanha contra as
riquezas nacionais e a tentativa permanente de silenciar a voz de quem ousasse defender
o povo. Ao oferecer o próprio sangue como “holocausto” pela liberdade e pela justiça
social, ele transformou sua morte em bandeira de luta imortal.
Vargas não foi apenas um presidente. Foi o divisor de águas da história brasileira. Antes
dele, tínhamos um país agrícola, oligárquico, preso às amarras do latifúndio e
subordinado ao capital estrangeiro. Depois dele, o Brasil passou a se reconhecer como
uma Nação em busca de autonomia, capaz de industrializar-se, de organizar seus
trabalhadores e de estabelecer um pacto social. Foi Vargas quem, pela primeira vez,
implantou um conjunto coerente de direitos sociais, como a regulamentação da jornada
de oito horas, o voto secreto, a proteção ao trabalho feminino, a criação da Carteira de
Trabalho, o salário mínimo e, finalmente, a Consolidação das Leis do Trabalho (CLT).
Foi ele também quem reconheceu o valor político da mulher ao garantir-lhe o direito de
votar e ser votada. Cada uma dessas conquistas era, em sua essência, um ato de
arbitragem na luta de classes, uma escolha consciente de colocar o Estado ao lado dos
trabalhadores.
Mas sua visão não se limitou à justiça social. Vargas compreendeu que sem soberania
nacional não haveria liberdade verdadeira. Criou instituições e empresas estratégicas —
a Companhia Siderúrgica Nacional, a Vale do Rio Doce, a Fábrica Nacional de
Motores, o Banco Nacional de Desenvolvimento Econômico, a Petrobras e a Eletrobras.
Cada uma delas representava um tijolo na construção de um Brasil independente, capaz
de controlar seus recursos, proteger seu território e projetar-se no cenário internacional.
Ao erguer esses pilares, Vargas não apenas criou empregos e renda; construiu a base de
um projeto de emancipação nacional que permanece como horizonte ainda hoje.
Essa combinação de justiça social, soberania política e desenvolvimento econômico fez
de Getúlio Vargas o maior estadista brasileiro. Ele entendeu a luta de classes, mas não a
reduziu ao confronto cego: soube conduzi-la como árbitro, garantindo que o Estado
fosse instrumento de equilíbrio e não de opressão. Ele compreendeu a importância da
soberania como condição para que o povo não fosse mero espectador, mas protagonista
do seu destino. E projetou o desenvolvimento econômico não como privilégio de uma
elite, mas como caminho para a elevação de toda a Nação.
Seu gesto final, longe de encerrar sua obra, imortalizou-a. Ao declarar que seu sangue
seria “chama imortal na consciência” do povo, Vargas selou um pacto com as gerações
futuras. O Brasil que hoje ainda luta por justiça social, por soberania frente às pressões
externas, carrega a marca indelével de sua liderança. Sua morte, em vez de derrota, foi
vitória: transformou-o em mito fundador de um Brasil moderno, consciente de que não
há liberdade sem trabalho digno, nem desenvolvimento sem soberania.
Setenta e um anos depois, Getúlio permanece como farol. Diante de novas pressões
globais, de tentativas de entregar nossas riquezas, de ataques aos direitos trabalhistas,
sua Carta Testamento ecoa com impressionante atualidade. É como se falasse
diretamente ao presente: “Não querem que o trabalhador seja livre. Não querem que o
povo seja independente”. A cada tentativa de desmontar a herança social e nacional
construída por ele, cabe lembrar que Vargas nos ensinou a resistir.
O Brasil se divide entre antes e depois de Getúlio Vargas. Antes, a dependência, o
atraso, a submissão. Depois, a luta organizada, a esperança de soberania e o caminho
para a justiça social. Vargas saiu da vida para entrar na História, e nela permanece, não
apenas como personagem, mas como fundador de um projeto de Nação. Seu sangue
ainda pulsa na consciência popular, lembrando-nos de que a pátria não se vende, os
direitos não se entregam e o futuro não se constrói sem coragem.
Getúlio Vargas é, e continuará sendo, o estadista maior do Brasil — aquele que
compreendeu o povo, que desafiou os poderosos, que construiu a soberania e que
entregou a própria vida para que nós pudéssemos viver com dignidade.
Henrique Matthiesen
Formado em Direito
Pós Graduado em Sociologia