Sônia Pillon nasceu em Porto Alegre e desde 1996 reside em Jaraguá do Sul.
Formada em Jornalismo pela PUC-RS e pós-graduada em Produção de Texto pela Univille, atuou como repórter, editora, redatora e assessora de imprensa, no Rio Grande do Sul e em Santa Catarina. Por mais de 10 anos trabalhou no jornal A Notícia.
É autora de “Crônicas de Maria e outras tantas – Um olhar sobre Jaraguá do Sul” e “Encontro com a paz e outros contos budistas”, com participação em antologias de contos, crônicas e poesias.
Publica também no blog soniapillon.blogspot.com e na fanpage "Sônia Pillon Escritora". É Presidente de Honra da Seccional Jaraguá do Sul da Academia de Letras do Brasil de Santa Catarina (ALBSC).
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O dia estava se despedindo naquele sábado de maio. O sol pouco a pouco recolhia seus raios quando cheguei esbaforida ao guichê da estação ferroviária. Ofegante, pedi uma passagem para a última cidade do trajeto da locomotiva a vapor. O bilheteiro fez uma cara contrariada. O maquinista já estava pronto para colocar o trem em movimento. Minha expressão de súplica venceu a resistência do homem da estação e corri até o acesso do vagão 5, o único que ainda dispunha de algumas vagas.
Levantei o longo vestido de linho até a altura da canela e subi cuidadosamente a estreita escada metálica, ao mesmo tempo em que segurava a maleta de mão.
O coração ainda estava aos pulos quando entrei na cabine. Senti olhares curiosos cravados em mim. “O que uma mulher sozinha fazia ali?”, deviam estar pensando. Praticamente 70% dos assentos estava ocupado por casais de meia idade. Alguns acompanhados de crianças, possivelmente filhos e netos, que corriam de lá para cá, fazendo algazarra. Destoando dos demais, um jovem casal trocava beijos e olhares apaixonados, observados com expressão de reprovação pelo único casal de idosos presente naquele vagão.
Sentei no assento 21, junto à janela, bem atrás dos idosos. Ouvi quando a mulher cochichou ao marido, que concordava com a cabeça. “Mas que pouca vergonha! Onde está o respeito? Isso não é um comportamento decente. Imagina, ficarem se beijando na frente de todo mundo!”, reclamava ela.
O ritmo lento e sacolejante da locomotiva despertava a minha imaginação. A densa nuvem de vapor e fuligem entrava pelas narinas e me encantei com a bela paisagem vislumbrada da janela.
Porém, a aparente tranquilidade durou pouco. Sinto um calafrio ao enxergar, ao longe, quatro homens à cavalo e com lenços nos rostos. Decido me esconder. Pulo para o vagão de cargas e puxo uns sacos sujos de algodão jogados em meio às cordas. Me encolho lá dentro e fico imóvel. Minutos depois, ouço a gritaria vinda do vagão 5 e pouco depois sinto passos dentro do depósito. Começo a suar frio, com o coração siando pela boca.
“Olha só essa caixa pesada aqui, Jack! Quantos vestidos e fraques tem aqui! Tudo peça fina!”, exclamou um deles. Um homem de voz grossa, que me pareceu ser o chefe do bando, ordenou que pegassem todas as caixas com roupas importadas, possivelmente da Europa.
À certa altura, ouvi quando o homem de voz grossa ordenou que fossem embora. “Não tem mais nada aqui! Já ‘depenamos’ aquela velharada dos vagões. Vamos embora antes que chamem o xerife!”, vociferou.
Rapidamente eles foram embora. Respirei aliviada e decidi esperar ali até o final da viagem. Fechei os olhos e procurei dormir um pouco.
Acordei debaixo da manta e fiquei rindo por dentro. Fiz uma viagem pelo túnel do tempo! Aquele passeio de Maria Fumaça me transportou para o Velho Oeste norte-americano.