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Sentimentos - Fernando Coimbra dos Santos

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"Se eu puder combater só um mal, que seja o da Indiferença".

 


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Melodia em tom menor (continuação) Cap. IV

Quarta, 04 de abril de 2018


 

IV

Ficou a olhar a cidade deserta àquela hora da manhã (ou seria um entardecer?) imersa num tênue nevoeiro frio que o fazia ficar com as mãos nos bolsos do casaco. Como sempre, a bagagem era muito pouca, quase inexistente.

Chegava a ser engraçado – pensou – como a espera de um ônibus que não vinha marcara a sua vida indelevelmente em tantas ocasiões. Inexplicavelmente, por que seria que um ônibus sempre se fazia presente nas horas mais difíceis e decisivas de sua vida?

Seria um irônico simbolismo de que uma etapa acabara e outra estava se iniciando, e o ônibus era o inquietante elo de ligação que o afastava da segurança amarga de suas lembranças, conduzindo-o para o futuro desconhecido que se afigurava tão incerto?

Seria isto a explicar a dolorosa e incerta nostalgia que quebrava seu coração sempre que via um ônibus intermunicipal ou interestadual a se deslocar vagarosamente ao longe?

Mesmo que aquele momento não fosse de solidão, amargura e desamparo, que haviam se tornado tantos?

Ver um ônibus ao longe, e seu coração se confrangia numa saudade e falta dolorosas, nem mesmo ele sabia precisar exatamente de que. Ou de quem.

Não importava, não fazia mesmo muita diferença àquela altura da vida.

E agora estava sozinho, de pé na beira da calçada, esperando mais uma vez um ônibus que não vinha. Um ônibus que o levará para um lugar incerto, qualquer um, não importa. Importa sair dali, antes que as mágoas de sua vida o afoguem de vez na desesperança fatídica que lhe corrói o que lhe restou de alma.

A luz mortiça do amanhecer (ou seria entardecer?), a luz que o envolve, parece destacar e participar daquela mágoa profunda, acentuando de certa forma aquela dor surda e constante que martela impiedosa e incansavelmente seu cérebro e coração, atordoando-o em lembranças que não devem ser lembradas.

Começa a ouvir mentalmente uma melodia triste, uma das tantas que marcara sua vida. Não consegue assobiá-la ou mesmo cantarolá-la, e isto também não tem a menor importância.

Uma das poucas coisas que tentara aprender na vida fora aceitar resignadamente as coisas que escapavam a seu controle, as coisas que sentia ou sabia que não podia modificar.

E como se fosse o tema musical de um filme triste e sentimental, sempre havia uma melodia diferente a marcar indelevelmente cada etapa sofrida de sua vida, a melodia que, no entanto, é uma superfície leve, que não consegue esconder ou encobrir o desespero que tumultua nas profundezas.

Cada música bem que se esforça para ser despreocupada e ter a alma leve, como se fosse uma amarga dança pueril em cima de uma sepultura, o que talvez explique seu olhar enevoado que às vezes se perde ao longe, muito longe, longe demais, olhando para dentro de si mesmo, olhando para um passado longínquo demais.

E de repente o esforço desesperado e angustiante para contê-la, de repente as águas represadas ameaçam romper todas as barreiras, levar por diante a cortina vaporosa e ilusória, as barreiras que também ameaçam se romper num estrondo incontrolável e se espraiar numa melodia agitada de desespero, o retrato patético não revelado do estado irreversível e irrecuperável de sua alma.

E aquele maldito ônibus que não vem, deixando-o desamparado e exposto naquela beira de calçada de uma rua cujo nome não lhe importa. E oscila dolorosamente entre uma tristeza insuperável e um riso amargurado em seu desamparo, em seu desânimo, aquele coração de adulto que tinha crescido sem jamais deixar de ser criança.

Uma criança que teimava ainda em sonhar, em viver consciente e deliberadamente num mágico mundo de faz de conta, que incoerentemente era unicamente o que o separava da insanidade de suas realidades.

Mesmo doendo, ainda se permitia algumas lembranças que se recusavam a submergir em seus esforços para contê-las, mesmo porque não podia evitá-las. E momentaneamente seu involuntário sorriso triste se alarga, ganhando um brilho particular e pleno de significados que avaramente não divide com mais ninguém.

A música indefinida continua a tocar em seu íntimo, lágrimas internas teimam em brotar e ameaçam extravasar em seus olhos que procuram ocultar um desespero esmagador.

Diabo de música triste.

Como se fosse possível escolher um repertório mais alegre, constata amargamente.

Há na cidade adormecida um silêncio comovido, um silêncio que embala docemente uma enorme tristeza, a tristeza desalentada de não poder voltar ao passado.

Voltar para se corrigir, para passar a vida a limpo, evitando todos os erros, todas as misérias, a impossibilidade de mudar coisas que não podem ser mudadas.

Mais uma viagem. Desta vez – espera – a definitiva, a derradeira delas. Outras não se farão mais necessárias.

E seu sonho – espera – desta vez vai se realizar, ficarão para trás todas as angústias, todos os aparentes fracassos que aconteceram à sua revelia, no que seria uma libertação.

Devia estar alegre, sacudir os braços, correr, gritar, mas uma opressão estranha o paralisa naquele torpor que parece fazer o próprio tempo parar.

Olha penosamente para seu interior, para suas lembranças, mas nenhuma delas emerge e lhe fala assim consoladoramente, com aquela ternura longínqua.

De repente tem a impressão de que na memória se lhe abre uma clareira por onde ele enxerga o passado.

Por uns momentos vê o passado como se fosse um privilegiado espectador, mas é apenas um relâmpago, quase que imediatamente de novo cai a névoa e ele constata duramente que é o insubstituível ator principal.

Olha para diante, para o presente que se faz tão amargo e, mais uma vez, para o futuro que se afigura tão incerto, terrível e dolorosa possibilidade, quase certeza, de novas e inevitáveis etapas de repassar o que já passou infindáveis vezes.

Questiona-se inutilmente. Quem sou eu? Como vim parar aqui? Onde estão os amigos que nunca tive? Será que o ônibus que espero com tanta angústia e ansiedade traz como passageiros os fantasmas de minha vida? Ele não queria viajar neste ônibus tenebroso e escuro como sua alma e seu coração partido, cujos passageiros são os conhecidos e sempre presentes fantasmas de sua vida, de suas lembranças.

O ônibus desconhecido que tantas vezes é um pavor na noite que se tornou a sua vida.

E agora, está amanhecendo (o que seria uma esperança) ou entardecendo (que seria mais uma inevitável aniquilação), com suas recordações, com a dolorosa realidade dos sonhos desfeitos pela vida?

O ônibus finalmente surge lentamente ao longe. Por que demorou tanto? Há um instante de aflitiva e derradeira esperança, a desesperada busca pela leitura do letreiro do destino. Por um instante ele balança, indeciso e esperançoso, sob as tênues fronteiras que separam a vida da morte, na letal esperança irrealizável de que alguma coisa aconteça e não o faça partir.

O letreiro de destino é apenas uma tarja negra sem palavras, o ônibus para a seu lado e a porta se abre. Finalmente. Entra, não vê o motorista, não vê os passageiros. Senta-se num lugar qualquer, a porta se fecha aparentemente para sempre, o ônibus vai partir.

Buzina como numa despedida, é um gemido rouco, longo, doloroso, desesperado, irremediável, definitivo, sem possibilidade de volta.

Voltado para a janela de vidros embaçados, ele não vê mais a cidade que fica aos poucos para trás, para nunca mais voltar.

Imerso numa absurda amargura, ele olha o vácuo, o vazio onde se precipita mais uma vez.

Agora é novamente uma sombra amarga e ao mesmo tempo resignada entre as outras sombras que o acompanham em mais esta viagem, os familiares fantasmas de seu passado que teimam obstinadamente em ser sempre o seu insustentável presente.

Fosse um ônibus de turismo, o guia certamente estaria dizendo e contando os detalhes que constituíam a paisagem que não podia ver. Mas omitiria talvez a coisa mais importante daquilo tudo que naquele momento acontecia naquele ônibus.

Naquele ônibus, naquele momento, um homem sofria.

E chorava amargamente, mesmo que fossem lágrimas que não se exteriorizassem, lágrimas que ao invés de lavar e aliviar sua alma apenas o submergia e afogava em uma dor desesperada.

O ônibus deixou a cidade para trás. O destino, algum lugar no futuro, não importava qual, mesmo porque não havia mais a possibilidade de um futuro.

Surpreende-se momentaneamente fazendo apostas impossíveis consigo mesmo, efêmera e inútil tentativa de sustar sua interminável queda naquele poço escuro e sem fundo: dez Reais como a viagem é só de ida sem volta; mil Reais como a viagem é de ida momentânea e volta definitiva, para que nunca, nunca mais, hajam novas partidas.

Chegava a trapacear, subornando suas esperanças que se esvaíam e não mais se sustentavam, valorizando um último sonho derradeiro que – sabia – não mais se faria presente.

Riu silenciosa e desvairadamente, diante da pergunta que fazia a si mesmo, se havia justiça no mundo. E esperança. E se haviam, onde estavam elas em sua vida?

O amanhecer que esperava que fosse se revelou mais uma vez um entardecer, que logo traria mais uma vez a noite em sua vida. Pela janela embaçada e sem nitidez, que refletia apenas seu desencanto e amargura, deparou-se imaginando que o ônibus percorria inexoravelmente a estrada do tempo, a correr incessantemente para a eternidade, numa viagem direta e sem volta, inevitável e sem paradas intermediárias.

Nem mesmo a absurda e escorregadia esperança de que em inesperados trechos o ônibus se afastasse da estrada, derivando momentaneamente para algum canto impreciso e improvável que lhe desse uma oportunidade de redenção, ocorria a este passageiro involuntário.

O que poderia acontecer desta vez que mudasse os rumos indefinidos de seu destino amargo?

Insensato. Já devia saber. Já devia ter aprendido, que nenhum gesto seu, nenhuma palavra, nenhum desejo, poderia alterar o que já havia acontecido, nem mesmo dar uma dolorosa esperança do que poderia acontecer.

As horas que se seguiram foram de desespero, nada encontrou além de amargas e ao mesmo tempo tão doces recordações.

Como para manter e preservar o pouco de sanidade que lhe restava, recusava-se a examinar os episódios de sua vida aparentemente tão inútil à luz da razão.

Tudo havia acabado como devia, o ônibus deixava-se levar pela velocidade vertiginosa e ele não sabia e nem queria saber o que o esperava no final daquela estrada sem fim.

Nada mais importava, o melhor era entesourar as doces mas amargas lembranças e procurar não pensar na razão de nada, já que se houvesse, escaparia totalmente de seu alcance e compreensão.

Uma voz indefinida e desconhecida lhe gritava: "Foge, foge enquanto é tempo". No entanto, ele permanecia onde estava, como se enfeitiçado. Veio-lhe então uma repentina e surda revolta (contra quem?) que logo se desfez, diluída em seu desamparo, na amargura e definitiva certeza que desta vez era mesmo uma viagem sem volta.

Sentiu então que agora, mais do que nunca, corria o risco de perder para sempre os seus sonhos. Veio-lhe um terror quase pânico do futuro. Ocorreu-lhe incoerentemente as lembranças de suas tardes de chuva, plenas de melancolia, onde apenas submergia mansamente vencido em sua dor e desamparo. Como seria possível alguém encolerizar-se com a vida e dizer grosserias numa tarde de chuva, se isso nunca iria mudar nada fosse lá o que fosse?

Ocorreu-lhe uma esperança absurda, irrealizável. E se o ônibus de alguma forma maravilhosa e impossível estivesse a conduzi-lo para o seu passado? Ele precisava voltar, mesmo reconhecendo e sabendo que amara mais, muito mais, do que fora amado.

Como num delírio febril, no escuro da noite de sua vida, como se fosse a voz de um anjo, deparou-se com sua resposta aflitiva e aterradora: "Não podes voltar...".

Não chegou a ouvir o anjo, leu suas palavras escritas indelével e definitivamente no céu escuro lá fora. Ou seria apenas um reflexo na vidraça que preferia acreditar molhada por gotas de chuva?

Sem se dar conta do que fazia, viu-se acionando o sinal de parada. O ônibus diminuiu a velocidade e se imobilizou metros adiante na noite escura.

A porta se abriu, não houve despedidas, apenas gargalhadas sarcásticas dos demais passageiros, os fantasmas de sua vida que zombavam sem piedade de mais uma tentativa, de mais uma esperança que jamais se realizaria, fosse lá por que motivo fosse em sua vida incoerente.

Quase se arrependeu de seu gesto, mas aquela esperança e impulso absurdos o empurraram para fora. Estranhamente o ônibus não seguiu viagem, como se ficasse à espera dele, como se soubesse ser uma simples, momentânea, rápida e fugaz parada e inútil protelação do que estava irremediavelmente para acontecer em seu destino imutável.

Deu alguns passos na beira da estrada silenciosa e sem vida, sem destino certo. Olhando para a escuridão. teve um súbito desejo de ir embora, de seguir em frente.

Mas, para onde?

A resposta lhe veio imediata: para o passado, seu passado, onde quase que constantemente voltava em sonhos, dourando habilmente as partes sombrias, num mágico e deslumbrante faz de conta do que poderia ter sido se tivesse sido diferente.

Viu-se bradando desesperada e silenciosamente como o profeta bíblico no deserto: "Deus, onde estás que não me respondes?" E sentiu novamente uma dolorosa revolta não contra si mesmo, por não ter fé, mas contra Deus, por não existir em sua vida.

Ou existiria?

Ou Deus era tão grande que não devia ter tempo para preocupar-se com um vago ser humano que fora engolido pela vida? Deus não precisa de mim – consolou-se amargamente.

Queria morrer, naquele momento em que caminhava solitário à beira da estrada, mesmo em meio à sua inútil revolta, talvez imperdoável.

Se Deus existe – pensou – Ele o saberia compreender. Se não existe, nada terá a menor importância... Por que não baixar vencido a cabeça e aceitar simplesmente o que não podia modificar? Porque perderia o respeito próprio, que afinal de contas era uma das muito poucas coisas autênticas que lhe restava.

Que importância pode ter a decência, a coerência e a honestidade para quem deixa de acreditar em Deus? Mas contraditoriamente, reconhecia, se Deus não existe, não pode existir o Bem e o Mal e tudo vale. Começou a rir baixinho consigo mesmo, reconhecendo-se imerso numa religiosidade que não conhecia. Ou que não sentia. Ou que não queria admitir.

- Não me queira mal, meu Deus – suplicou tristemente – sou apenas um pobre moço confuso que não pode mudar nada em sua vida.

Descobriu-se chorando. Chorava porque sentia-se fraco, muito fraco, solitário e desamparado, só por isso. Soltou uma risada curta e seca. Se alguém perguntasse do que estava rindo, só teria uma resposta incompreensível:

- Coisas... Coisas de menino tolo que se perdeu na vida.

Não ouvia mais nem o ruído de seus próprios passos. Caminhava absorto nas próprias reflexões, pela estrada que estava plena duma névoa leitosa de tons arroxeados, que parecia deformar estranhamente todas as imagens.

Sequer reparou que o ônibus voltava a se movimentar, rodando lentamente à distância, como se fosse um cão que o protegesse ou uma forma demoníaca à espreita que aguardasse apenas um débil sinal de pedido de parada que sabia ser questão de tempo, inevitável e definitiva.

A vida é estranha, pensou. Estranha e incontrolável. Seria um estranho sonho entre dois Nadas, o de não haver nascido e o de já ter morrido? E o que dizer de suas mortes em vida?

Surge indistinta à sua frente, à distância, iluminada parcamente à luz das estrelas, uma triste placa.

Inconcebivelmente, em letras douradas como seus sonhos poderiam ter sido, conseguiu ler parcialmente: "SEU PASSADO A...".

A que distância estaria? Chegou a iniciar uma pergunta, mas se calou, cônscio e envergonhado pelo ridículo que o assaltava ao se dar conta de que estava falando para si próprio. Foi surpreendido pela voz que não esperava e lhe era inconcebível, que vinha possivelmente de sua imaginação (ou de sua alma conturbada):

- O senhor tinha começado a perguntar alguma coisa...

Mesmo sem o querer, no que seria um diálogo monologado, viu-se justificando:

- Ora, eu ia dizer uma bobagem...

O brilho apagado em seus olhos oscilava no que poderia ser a expectativa da espera de serem vistas novas alegrias ou novas tristezas.

- Diga. Já disse tantas...

Ponderou, em dúvida. Começou a falar, mesmo que fosse consigo mesmo, nem o sabia ao certo.

- Bom, eu pediria para voltar a meu passado, nem que fosse por alguns instantes. Há muito, muito tempo, que estou com esta ideia fixa na cabeça...

A resposta veio, delicada.

- Mas ninguém o impedirá de visitar os lugares de seu passado.

Ele sorriu.

- Não me expliquei direito. A volta que eu desejo não é no espaço, mas no tempo.

"Estarei sendo ridículo?"- temeu ele, diante daquilo que parecia uma fantasia absurda e impossível. Como se tivesse lido seus pensamentos, sua resposta foi pronta:

- Não, não acho nada absurdo. Compreendo. Mas só há um meio de voltar. Imagine uma história sobre esta volta ao passado. Estou falando sério. Fique aqui, feche os olhos e imagine essa incursão ao tempo perdido. E sabe de uma coisa? A volta imaginada e transformada em arte vai ser mais bela e intensa e completa do que seria uma volta real, se ela fosse possível... Aproveite este momento, porque ele não voltará nunca mais.

- Como fazer isso? – implorou-se.

- Feche seus olhos e transponha esta placa, que você adentrará em seu passado como quer. Mas saiba que é uma ida sem volta. Tem certeza que quer mesmo ir em frente? Tem certeza de que poderá pagar o preço? Por que não se conta o que espera, antes de dar este passo definitivo?

O ônibus parara novamente lá atrás, despercebido, confirmando aquela espreita, à espera de uma decisão irrevogável que sabia perto.

- O que quero é impossível, portanto não preciso perguntar, não preciso dar explicações a ninguém, nem a mim mesmo. Basta que eu acredite. E eu acredito, como eu acredito...

- Pois venha que eu o conduzirei – respondeu a voz em seu interior.

Num doce estonteamento, transpôs o presente.

De alguma forma apressou o passo e se refugiou em seu passado, para melhor proteger as suas lembranças.

Viu-se moço, de repente, transformado e transportado por um clarão prateado que nada mais era que o brilho das estrelas.

Viu-se jovem outra vez, tocando uma campainha junto a um portão, emocionado e temeroso ao mesmo tempo. Uma voz neutra chegou aos seus ouvidos:

- Que é que você quer?

- Preciso falar com a senhora e seu marido. Estou apaixonado por sua filha...

Ela o olhou estarrecida pelo inesperado da resposta.

- Como se chama, moço?

Disse-lhe seu nome.

- Que idade tem?

- Dezenove anos, senhora.

- Só? Eu esperava que isso só fosse acontecer mais tarde...

- Se a senhora preferir que eu envelheça – sorriu – posso ir embora e voltar daqui a vinte anos... Não, não é verdade, não posso mais esperar tanto tempo.

Ela sorriu, e o moço teve medo que isso quebrasse o encanto. Porque sentiu em seu coração que algo de irreal e maravilhoso estava acontecendo, apesar de não compreender por que nem como.

Só sabia que de alguma maneira havia encontrado um novo lar, um abrigo. Como explicar que sua filha se parecia com a misteriosa mulher que costumava visitar seus sonhos, e cujo rosto jamais conseguira ver com clareza?

A mulher o mandou entrar. Chamou o marido.

E depois, quando a moça chegou na sala, quando seus maravilhosos e únicos olhos castanhos o miraram com incredulidade e enlevo, o escafandrista finalmente teve certeza do por que havia descido às profundezas do mar.

E a alegria do descobrimento transformou-se em música em seu espírito.

- Como era o rosto dela? – perguntou suavemente a voz.

Olhou fundo para o passado que se fazia tão presente, e seus olhos brilharam na felicidade da recordação.

- Só o posso ver... não posso descrevê-lo... – confessou comovido.

- Eu o farei por você. Não me parece possível retratar com palavras um rosto de mulher. O que importa não é o seu formato, a cor dos olhos, o desenho da boca ou do nariz ou o tom da pele. É, antes, uma certa qualidade interior que ilumina a face, animando-a e tornando-a única e distinta de todas as outras, e essa qualidade raramente ou nunca se deixa prender até mesmo pela câmara fotográfica. Existem artistas hábeis ou apenas afortunados que, ao pintarem um retrato de mulher, conseguem uma vez ou outra fixar na tela essa luminosidade que à primeira vista parece vir dos olhos, mas que no entanto continuará a brilhar na face mesmo que lhe vendemos os olhos.

Assentiu, embevecido.

Um resplendor exatamente como este envolvia inteiramente a moça que amava.

- Sim – concordou. – Isto tocou minha alma para sempre. Minha vida, então, mudou por completo. Eu passava as horas a esperar com ansiedade o momento de estar com ela. Jamais contei a quem quer que fosse o meu segredo; como uma ostra zelosa, eu me fechava mais do que nunca na concha, cioso de minha pérola.

Uma sombra de tristeza, entretanto, lhe toldou o olhar.

- Havia, entretanto, momentos em que eu temia não o mundo, mas o lógico que mora dentro de cada um de nós e que a qualquer momento iria pedir explicações sobre o que me estava acontecendo. E toda vez que este censor ameaçava fazer a temida pergunta, eu o subornava: "Preciso acreditar nisso, senão estarei perdido para sempre".

Pensou, por alguns momentos, analisando suas lembranças.

- Uma doce intimidade foi se formando entre nós, um entendimento que não dependia de palavras nem de pontos de referência no tempo ou no espaço. Às vezes quem falava mais era eu, surpreendido e encantado que estava por encontrar alguém que se interessasse pela minha pessoa e pela minha vida. Esvaziei assim o coração de muitos cuidados e muitos segredos. Coisas que eu trazia fechadas a sete chaves no recesso de meu ser, vieram à tona e se transformaram em palavras e sentimentos.

A tristeza retornou momentaneamente às suas reminiscências:

- Mas como eram vazias e tristes as horas que eu passava longe dela. Eu procurava não pensar, mas temia o futuro. Temia que a vida, de alguma maneira maldosa que eu não conhecia e não podia evitar, me afastasse para sempre daquela criatura maravilhosa que eu mais amava...

Havia uma tão profunda expressão de ternura, que ficou perturbado por aquela compreensão.

- E foi de curta duração. Posso sentir e ver seu desespero a caminhar desorientado pelas ruas vazias, em busca de um amor impossível perdido na vida.

Seus olhos se encheram de lágrimas.

- Ai de mim, bem o sei. Foi algo de insensato, pois devia saber que nenhum gesto meu, nenhuma palavra, nenhum desejo, poderia alterar o que já havia acontecido. Eu a perdi, ela se foi, e com ela uma imensa parte de mim...

Seu olhar se perdeu num vazio profundo e infinito.

- Foi alguém que conheci há muito tempo... Não sei por que estou revivendo o que passei. Não sei por que estou sempre tentando definir o indefinível, colocar em palavras estes sentimentos e lembranças que me aniquilam e ao mesmo tempo, de alguma maneira, são as únicas coisas a me manter vivo... Só posso senti-lo, só posso lembrá-lo... Madrugadas houve em que andei à toa pelas ruas, com um desejo quase insuportável de ir ao menos olhar a casa do meu anjo. Uma voz secreta, porém, aconselhava: "Não se entregues tanto... Poderás descobrir que tudo não passa de uma ilusão..." E eu não ia, temendo me defrontar com esta realidade...

Ficou então pensativo. Depois de alguns instantes, comparou:

- Foi como se fosse uma música, uma sinfonia. O primeiro movimento traduziria a minha surpresa e a alegria de encontrá-la, onde já se podia antever o temor que tinha um dia de perdê-la, tão especial e indispensável ela se me tornara. O segundo movimento pintaria em cores vivas os momentos felizes que por certo passaríamos e estaríamos passando juntos. O terceiro movimento descreveria o meu desespero lembrando e procurando um amor impossível perdido no tempo. O quarto e último movimento seria um prolongado repassar dessa tristeza resignada de quem se rende diante do irremediável, sem rancores para com a vida ou as outras criaturas, um movimento lento e nostálgico sugestivo de um rio a correr lentamente para o infinito, levando consigo a saudade das coisas vistas em suas margens e a certeza dolorosa e inquestionável de que suas águas jamais tornariam a refletir aquelas imagens queridas... Será possível ainda acreditar em sonhos? Mas, por mais que necessitasse de seu amor, só aceitaria o que dela partisse espontaneamente... Ah, se eu pudesse dizer a ela... se eu pudesse vê-la e dizer-lhe uma última vez...

- Dizer o que? – perguntou a voz.

- Não sabes que dentro de pouco tempo posso estar morto? Não compreendes que este pode ser o nosso último encontro? Por que não me abraças, não dizes que me amas e me perdoa por tudo quanto deixei de fazer por ti?...

A noite se iluminou indescritivelmente além de uma ponte. O rosto lindo, que mais amava na vida, sorria docemente do outro lado.

- Por que não o faz? – perguntou suavemente a voz.

O homem hesitou por um momento, incrédulo da possibilidade de veracidade daquela possibilidade que tanto sonhara e precisava. Deu um passo vacilante.

E então, no momento seguinte, abriu os braços e, correndo e sorrindo, cruzou a ponte de suas lembranças, incongruentemente mais uma vez através da realidade de seus dedos no teclado de um piano, a única que realmente tinha e lhe era concedida em seus desvarios.

(Continua)

 



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