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Cléverson Israel Minikovsky (Pensando e Repensado)
Advogado
Filósofo
Jornalista (DRT 3792/SC)
O que é família? Segundo Millôr Fernandes, “é um grupo de pessoas que tem a chave da mesma casa”. Os judeus costumavam gabar-se “nós somos filhos de Abraão”. No sentido de serem seus descendentes. Mas Jesus diz em Lucas 3, 8 “Se Deus quisesse poderia fazer suscitar filhos de Abraão destas pedras”. Em Lucas 19, 7-10 Jesus fala que também Zaqueu era filho de Abraão. Ora, Zaqueu era um cobrador de impostos do Império Romano, e, portanto, um não judeu. Como poderia, pois, ser ele filho de Abraão? Em Mateus 12, 46-50 diz que “Falando Ele ainda à multidão, eis que estavam fora sua mãe e seus irmãos”. A dicotomia DENTRO-FORA. E lhe disseram: “Eis que tua mãe e teus irmãos estão aí fora e querem falar contigo”. E Jesus responde: “Quem são meus irmãos e minha mãe?”. E estendendo a mão para seus discípulos: “Eis aqui minha mãe e meus irmãos”. Ou seja, Cristo não considerava sua família biológica como sua verdadeira família. Família são aquelas pessoas com as quais temos familiaridade. Talvez alguém possa dizer: família são meus colegas de trabalho, é o tio da minha namorada, é meu professor, é o pastor, isto é, talvez colocando todas essas pessoas numa mesma casa elas não conseguiriam conviver, mas é a família de uma pessoa. Muitas vezes um casal não consegue ter filhos por razões naturais. A despeito disto tenho duas coisas a dizer: ainda que um homem seja eunuco Deus tem poder de lhe dar filhos. Todavia, de nada adianta ter filhos biológicos e não ter nenhuma afinidade espiritual com os mesmos. Um filho adotado que esteja em sintonia com seus pais adotantes é muito mais filho do que aquele outro que tem o DNA, mas não está nem aí para as questões familiares. Muitas vezes somos obrigados a buscar uma família fora de casa porque dentro de casa não há família. O pai imagina que conhece o filho, mas sequer vislumbra quem realmente ele possa ser. Muitas vezes não temos nenhuma intimidade com nossa família biológica. Mas uma coisa é certa: se a nossa família biológica nos rechaça, não podemos ficar sem família. A grande questão é: que tipo de filhos nós estamos deixando para o mundo e que tipo de mundo nós estamos deixando para nossos filhos? A primeira é uma questão moral e a segunda uma questão ecológica. O pai de verdade, seja ele biológico ou não, se preocupa com os sentimentos do filho e da filha, ele respeita o modo de pensar do filho. Nas relações familiares deve existir franqueza e intimidade. Os pais não podem se dirigir aos filhos de maneira superficial como se lhes fossem superiores. Porque a superficialidade gera vazio espiritual e este vazio gera instabilidade que gera máscaras. As teorias filosóficas deterministas não merecem prosperar. Mas uma coisa é certa: os pais têm a capacidade de influenciar a personalidade dos filhos. Que influência você esta deixando sobre seu filho, sua filha? Seus filhos serão pessoas espontâneas ou todas cheias de mecanismos de defesa e bloqueio psicológico? Se toda ocasião é ocasião para repreender seu filho, se toda vez que ele sorri você o espezinha, como ainda se atreve esperar ser admirado por ele? Quando for levar seu filho ao psiquiatra não se esqueça de que há muito tempo você mesmo deveria estar fazendo uso de medicamentos controlados. De vez em quando vejo o adesivo nos carros “ame seu filho antes que um traficante o adote”. Preciso fazer comentários? O clichê fala por si mesmo. Cada vez mais incumbimos o Estado da educação dos nossos filhos e na verdade nada substitui a família nesta função. Os meios de comunicação social destroem aquela conversação que existia no seio da família antes da invenção da televisão. O personagem da novela recebe mais atenção do que o filho, do que o esposo, do que a criança em tudo carente. Os donos do poder lutam para enfraquecer a família, porque onde os laços familiares são tênues as pessoas são mais facilmente manipuladas, para o consumo, para a política, etc.