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Henrique Fendrich

rikerichgmail.com

Henrique Fendrich (Crônica de São Bento)

Jornalista são-bentense residindo em Brasília/DF


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Da vontade de se isolar

Terça, 17 de março de 2015

 

É bastante meu conhecido o sentimento que leva uma pessoa a se isolar das demais e viver de forma solitária. Ele surgiu quando tomei consciência da minha própria individualidade e nela encontrei significativas diferenças em comparação com a maioria das pessoas. Diante dessas diferenças, percebi que eu não era compreendido pelos outros e que, para ser aceito, muitas vezes eu me obrigava a fazer aquilo que não me agradava. Nada mais natural, então, que eu desejasse sair da companhia de quem pouco tinha a me oferecer e buscasse refúgio no isolamento, única possibilidade de me sentir realmente à vontade. Julgando-me capaz de viver sem os outros, e recusando-me a oferecer a eles o que eu também não recebi, deixei evidente todo o meu despeito. E a partir de então me julguei livre para fazer apenas aquilo que eu sentia vontade de fazer. No meu espaço, tornei-me pleno e auto-suficiente – um projeto de deus.

Isto, é claro, não passa de delírio, pois eu sempre precisei dos outros muito mais do que fui capaz de admitir. É somente através da mediação com o outro que formo a minha identidade – é, aliás, apenas através dele que reconheço em mim as mesmas características de que tanto me orgulho. A minha própria auto-estima só existe em consequência do meu contato com o outro. Também é apenas através da convivência com outras pessoas que consigo afinar, levar adiante e concretizar os projetos que nascem da minha visão diferenciada de mundo. Em suma, é por intermédio do outro que eu consigo, efetivamente, existir. Quando eu me abro ao outro, eu não estou meramente cometendo um gesto de generosidade: eu de fato necessito daquilo que ele tem a me oferecer, ainda que esteja ciente das nossas diferenças.

Mas abrir-me ao outro está longe de ser um movimento fácil, sobretudo porque, se aspiro ser deus, como resultado do meu afastamento das pessoas, é pouco provável que eu tenha algum sentimento de estima por quem não compartilha da minha natureza. Para sair da redoma que eu mesmo armei para mim, preciso de um motivo muito forte, talvez como só o amor consiga. Os cristãos têm uma história significativa a esse respeito quando dizem que houve entre nós uma pessoa de natureza divina que abriu mão das suas prerrogativas para se fazer tão humana quanto qualquer um de nós. Ora, se este deus é verdadeiro, ele não depende da humanidade para coisa alguma, e será somente através do amor que conseguirei explicar semelhante gesto de desprendimento. Se, ao contrário dele, não sou absoluto e nem tenho em mim tudo o que preciso para viver, com muito mais razão deveria eu me aproximar das outras pessoas, de quem, além do mais, não me diferencio senão por questões de gosto e temperamento.

Que eu não me engane: será apenas através do amor – vínculo da perfeição – que poderei vencer o sentimento de inadequação que leva ao isolamento. Só quando conseguir vivenciá-lo verdadeiramente é que estarei em condições de colocar as minhas próprias qualidades a serviço do outro. Do contrário, serei apenas uma pobre criatura tentando se salvar sozinha.

 



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