yahoo.com.br
Escritor e Poeta
Natural de São Bento do Sul,SC, casado com Karim Voigt, pai de 2 filhas: Daniela e Fernanda e 1 filho: Fábio Luis, 1 neta Giovanna e 1 neto Eduardo.
Membro da Academia Parano-Catarinense de Letras, ocupando a cadeira de nr. 41.
Membro da Diretoria da Oficina de Poetas - formação de jovens poetas nas escolas públicas.
Membro da Academia de Letras Infanto-Juvenil para Santa Catarina
Municipal de São Bento do Sul
Mérito Literário do Instituto Montes Ribeiro de Curitiba/Pr
Essa aconteceu aqui em São Bento do Sul/SC, na década de 60.
Adinoran não era flor que se cheirasse, viu o vizinho desfazendo-se de umas tralhas e vasculhando o lixo deparou-se com aquela caixa cor-de-rosa.
Apanhou-a e seus olhos brilharam, em embalagens perfeitas lá estavam: oito engrenagens niqueladas de tamanhos diversos, para bicicletas NSU OPEL.
“Uma raridade valiosa”, pensou com seus botões, carregando-a para casa.
- Bom dia!
- Bommmmm diaaaaa!!!!, respondeu-lhe seu Otti, da mecânica de bicicletas.
- Meu vizinho acaba de chegar da Alemanha e trouxe uma encomenda que fiz a ele, coisa rara, infelizmente de pouca serventia para mim.
“Então pensei, por que não negociar com o seu Otti? São perfeitas para aquela bicicleta antiga que ele tem exposta na vitrine da oficina”.
Abriu a caixa e mostrou a mercadoria novinha em folha.
- Não valem nada, disse-lhe, com franqueza, o alemão. - São peças antigas, inservíveis, um lixo...
Desolado, Adinoran fechou a caixa saindo aborrecido do estabelecimento.
Logo à frente visualizou a lojinha do turco Alkmin.
Entrou.
-Bom dia!
-Yvi günler, respondeu o turco, meio desconfiado.
- Alkmin meu amigão, meu vizinho acaba de chegar da Alemanha e trouxe a encomenda que eu lhe fiz.
Abriu a caixa dizendo: - São peças raras para bicicletas e sei que o seu Otti da oficina em frente está precisando, infelizmente não me dou bem com o alemão e pensei que talvez você pudesse negociar com ele, são muito valiosas.
Os olhos do turco cintilaram de ganância. - Mas valem algum dinheiro?, perguntou, com desdém...
- No mínimo uns Cr$ 4,5 mil (cruzeiros da década de 60)... estou negociando-as em troca de mercadoria.
Com muita lábia, Adinoran conseguira, sem muito esforço, trocar as engrenagens por algumas panelas e utensílios domésticos da lojinha do patrício.
Alkmin não perdeu tempo e em poucos minutos lá estava frente ao alemão da oficina.
- Bom dia, seu Otti!
- Bommmmm diaaaaa! – olhou para o turco de soslaio.
- Meu vizinho acaba de chegar da Alemanha e trouxe uma encomenda que fiz a ele pensando no senhor, coisa rara, infelizmente de pouca serventia para mim, veja que maravilha...
Seu Otti olhou para caixa e numa gargalhada exclamou: - Nem vem que não tem, o Adinoran há pouco esteve aqui e lhe expliquei que estas peças não valem nada... nadica de nada... scheisse (1)
Alkmin, puto da vida, saiu vociferando da mecânica.
Daquele dia em diante Adinoran passava em frente à loja do turco ligeirinho e do outro lado da calçada, e por vezes ouvia-o esbravejando: “Adinoran, filho de égua, safado, devolva mercadoria pro lojinha”.
**************************
(1) scheisse – "merda" em alemão
* fato verídico, preservados os verdadeiros nomes das pessoas.