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Sentimentos - Fernando Coimbra dos Santos (passageirodachuva@gmail.com)

Caipira de Taubaté, Caiçara de Ubatuba

Ex-policial civil que não se embruteceu com a vida.

PhD em Solidão.

 


Em Busca das Teclas Pretas Cap VI e VIII



Quarta, 03 de abril de 2019 09:23

(continuação)

 

VI

Ambos não queriam que a vida fosse assim e não queriam pensar no motivo, mas logo chegou ao ponto em que a maldita vida era tudo o que eles conseguiam ver quando se forçavam a seguir em frente, mesmo que fosse a única coisa que eles não olhassem de jeito nenhum.

Cada um deles achara que essa obsessão seria como as outras: viagens, passeios, bens materiais, tantas outras coisas. Que ela passaria, um dia.

Não foi.

Não passou.

Ela piorou.

Eram pessoas complicadas, além de infelizes. Porém, ainda se iludiam, ainda achavam que o mundo era repleto de pequenos milagres.

Eram – como tantos outros – rostos em uma busca desesperada por segurança, por felicidade, com certo entendimento de que não existe isso.

Não para todos.

Começaram a considerar como lidar com a vida, com suas incoerências, suas impossibilidades, suas injustiças. Como se fossem um fotógrafo, começaram a colocar uma lente entre si mesmo e o mundo.

Era uma defesa contra mais do que o perigo físico: também os blindava

contra outras coisas que tinham que conviver, Coisas terríveis e trágicas, como acidentes, colisões de trens, escombros de bombas detonadas em áreas urbanas numa guerra.

Eles se preocupavam que essa estratégia de sobrevivência tivesse se tornado um hábito.

“– Vejo o mundo através de uma lente”, confidenciara  ele certa vez, de modo um pouco triste, como se a câmera estivesse sempre lá, impedindo-o de se envolver, algo entre ele e a vida das outras pessoas.

Pelo menos, assim pensavam.

Pelo menos, assim se iludiam.

Carregavam a vida que imaginavam da mesma forma que carregavam a

que tinham, e às vezes vem a cobrança de todas as vidas que perderam.

Olhou para o rosto dela por um bom tempo, pressionando a ponta de um dedo com força na quina da mureta do viaduto para produzir um pequeno lampejo de dor a fim de tentar cobrir o sofrimento em seu coração.

Fechou os olhos na escuridão quebrada pela lua que despontava.

Foi então que percebeu que talvez  (sempre o talvez) a pobreza e a injustiça deste mundo fossem uma ilusão. Percebeu (ou assim quis) que as coisas ainda pudessem ser reais, certas e belas, mesmo que ele não conseguisse vê-las. Suplicou para que lhe fosse permitido que, se ele se posicionasse no lugar adequado, e tivesse sorte, isso de certa maneira poderia ser revelado para ele.

É quando você testa seus limites, mesmo não querendo fazer isso.

E isso não é uma coisa fácil de fazer depois de ter perdido a confiança no mundo e de seu coração ter virado pó.

Um dia teve que deixar a casa onde crescera. Lembrou-se de ter fechado os olhos por um breve segundo e gravado aquela imagem, pois queria guardá-la consigo. Para sempre.

E guardara.

Um dia, anos depois, voltou para rever a antiga casa.

Foi um erro.

Doloroso.

Mortal.

Foi bom vê-la, mesmo que só do lado de fora.

Mas não era fácil estar lá.

Em sua imaginação entrou, em sua imaginação sentou-se em cadeiras onde seu pai deveria estar sentado, usou xícaras que ele também havia usado mas, quando reviu sua caligrafia cuidadosa em um bilhete fixado na porta da geladeira, foi demais.

Quebrou-se.

Em sua imaginação (tão vívida) correu para seu antigo quarto, sentou-se na pequena cama e abraçou os joelhos, escondeu o rosto entre os braços, a dor perfurando seu peito como um milhão de pequenos dentes e garras.

Vivia na esperança inútil e inatingível de milagres.

Então seu coração vacila, só um pouquinho mais.

Dá-se conta da inutilidade do que está fazendo.

Liga o carro, vai embora lentamente. Acompanha um pouco, pelo espelho retrovisor, a casa que fica lá atrás, a casa que se afasta cada vez mais, cada vez mais distante.

Então dá-se conta da verdade da situação, da veracidade de sua realidade:

Não há como fugir, se afastar, do que carregamos dentro de nós.

É conviver com isso.

Ou aprender como fazê-lo.

Se a vida deixar.

“ – As linhas paralelas se encontram no infinito”.

 

 

VII

O cão farejador que vivia dentro dele levantou as orelhas, em alerta. Intuiu que a conversa estava terminando. Mesmo que o quisesse para si, de uma certa forma não queria aquilo. Não assim. Não acompanhado por uma imprevista e inesperada companheira de viagem.

Mas foi a expressão em seu rosto que o destruiu.

Perguntou-se se ela, em alguma outra época, tivera o mesmo sorriso triste de agora, uma mistura estranha e encantadora de incerteza e confiança.

“ – Confiança no que, meu Deus? – indagou-se inutilmente.

Deparou-se com a insolubilidade de seus conflitos.

“ – Será que eu poderia? Seria correto? O que ela acharia?”

E assim continuou, em uma artilharia louca e desesperada de apelos incoerentes até para si próprio. Então disse à moça, incompreensível:

– As mãos servem para segurarem outras mãos. Os braços servem para abraçar outros seres. Há fantasmas aqui, mas não são de sonhos mortos há tanto tempo... São os fantasmas dos acontecimentos.

Olha-a, como que aturdido. E continua:

– E esta é a coisa realmente notável: todas as pessoas que confiam em mim para dar um jeito nas dificuldades de sua vida supõem que eu tenha alguma pista quando se trata de dar um jeito em minha própria vida. E você nem me pediu nada...

— No fundo, bem lá no fundo, talvez eu pedisse... — ela disse.

— O que você pediria? — perguntou ele, por sua vez.

— Eu não sei — ela admitiu. — Mas é nisso que eu precisaria acreditar para seguir em frente. E eu não quero. Não mais. Estou cansada. Cansei. Chega.

Ele pensou um pouco, antes de responder.

— Vivemos blefando e fingindo que sabemos das coisas, quando, na maior parte do tempo, estamos apenas rezando para não errar feio demais.

Ela teve que rir. Um riso pleno de desalento.

— E acabamos errando mais ainda, não é mesmo?

— É... sempre...

Inesperadamente ela afaga seu rosto, um gesto pleno e irrevogável de carinho incompreensível. Mas que não mudaria nada, tarde demais.

Então ela disse, baixinho e com suavidade:

— Às vezes é preciso que outra pessoa nos ajude a dar o primeiro passo.

Isso é o que me assombra à noite. Não os mortos que encontro, mas os vivos que deixo para trás.

— Desculpe, mas não entendi o que quer dizer com isso – admitiu ele.

Ela continuou:

— O fato, a triste realidade, é que nunca são as diferenças entre as pessoas que nos surpreendem. São as coisas que, contra todas as expectativas, temos em comum.

— E o que temos em comum? – questionou ele.

— Além do fato de estarmos os dois sentados à beira do abismo, prontos para nos jogarmos? Além do sofrimento de toda juma vida? Além da inutilidade aparente de nossas vidas? Além de nosso desalento e de nossa desesperança? Além de... Talvez nada, não é mesmo?

Ele se acabrunhou com aquelas verdades. Então revelou:

— Não é de espantar que estejamos sempre nos pondo em perigo... Provavelmente contamos com a esperança de uma morte rápida.

— Então admite isso?

— E temos outra opção? Já não tentamos muito mais que o suficiente?

— Não o sei — respondeu ele suavemente. — Às vezes a coisa mais difícil de ouvir é a verdade.

— Ou admiti-la...

— Isso... admiti-la. Também confesso-me cansado... Mas que sentido tem contar uma história pela metade, não é mesmo? Ou pior: uma história que não passa de uma meia-verdade?

— Arrependimentos... Claro que pensamos em arrependimentos, mas não é o arrependimento das coisas que fazemos que ocupa nossa cabeça, é a melancolia pelas coisas que jamais teremos a chance de fazer.

— Isso... As coisas que a vida jamais nos dará a chance de fazer.

— Ou de ter...

— Ou de ter – concordou ele, com um profundo suspiro de pleno desalento.

Então ele a sentiu enrijecer sob seu braço. Implorou:

— Não... não faça isso... ainda não, eu lhe suplico...

Mais que ver sob o tênue luar ele percebeu o que ela estava prestes a fazer. O olhar no rosto da moça não era de medo. Não era de horror.

Ele intuiu que ela sabia, antes mesmo de saltar, antes de atirar-se daquele viaduto e cair nos trilhos lá embaixo, que aquele era o momento mais grandioso de sua vida.

Ela riu, cônscia de seu medo. Só não sabia precisar do que ele tinha realmente medo. E aquilo a fez querer ficar ali mais um pouco.

— A maioria do que escreveriam a meu respeito é mentira — falou.

— Por que não corrigi-los, então?

— Por que, você corrigiria a história de sua vida?

— E por que eu iria? Talvez, quando muito, se eu pudesse muda-la...

— Mas não pode... Não podemos...

 

VIII

Ele olhou seu piano de teclas brancas ao luar e maneou a cabeça. Havia alguma coisa estranha. Uma coisa que ele não havia notado há muito tempo. Como se houvesse algo se insinuado pelas suas costas sem que ele percebesse. Então, de súbito, para sua total surpresa, compreendeu.

Ele estava sorrindo.

Sorrindo de verdade.

Um sorriso que lhe vinha do mais fundo da alma.

Um sorriso a que se desabituara.

Teve que brincar.

– Você está ficando mais interessante a cada momento que passa – provocou.

– Minha cartola de coelhos está praticamente vazia, pode crer – respondeu ela, com um muxoxo.

– Por essa vez vou deixar passar – devolveu ele, generosamente. – Não quero parecer intransigente...

– Por que está fazendo isso? – perguntou ela, depois de um súbito silêncio.

– Fazendo o que?

– Perdendo seu tempo comigo...

– Ah, não estou perdendo meu tempo com você. Estou apenas... talvez... tentando entender um pouco a mim mesmo.

– Por que? – insistiu.

Ele pensou um pouco antes de responder.

– Talvez eu veja o óbvio com outros olhos... talvez eu sinta de forma diferente as pessoas, a paisagem, o mundo em si... Talvez. Pelo menos, é o que eu gostaria de acreditar... que assim fosse...

Um sorriso doloroso dela antecipou a resposta:

– Típico de quem sofre...

– É... típico demais, para o meu gosto... sempre vivi pondo um pé diante do outro...

– Perdão é uma coisa difícil. Tanto para oferecer... quanto para aceitar – disse ela. – Seria o caso de se perdoar?

Pensou na resposta apropriada. E que fosse sincera, totalmente sincera.

– Acredita na reencarnação? Acredita que não poderia ser uma vida só, mas uma sucessão delas?

– Acredito. Oh, como acredito. Como tenho que acreditar. Podemos viver com esperança. Ou podemos morrer, por falta dela. O que seria de nós se não houvesse a ínfima possibilidade de uma vida melhor?

– Mesmo que não fosse nesta...

– Sim, mesmo que não fosse nesta. E não é o que estamos fazendo? Buscando-a na próxima?

-Assim pensamos... assim queremos...

- E azar o nosso se não for assim...

– É... azar o nosso. Mas só tentando, não é mesmo?

– Só tentando... É pagar para ver,

Fez-se novamente o silêncio quando ambos pareceram se perder nos próprios conflitos, nos próprios pensamentos. Então ela continuou:

– Ri do amor, desafiei qualquer pessoa a me mostrar que existia o amor, porque, na verdade, essa foi a razão de eu tentar prosseguir. Ergui um muro ao meu redor para me proteger das mágoas que já sofri e das que iria sofrer, para desafiar qualquer um a me mostrar um amor verdadeiro, pelo qual valesse a pena morrer. Mais que isso, talvez, pelo qual valesse a pena viver.

Ele sentiu-se transparente quando ouviu o som de sua voz e alguma

coisa esvaziou o que restara de seu ser, espalhando os seus cacos. E ali, desnudado e despedaçado, ele se perguntou, até teve esperança de que houvesse um final da história da sua vida que ele não tivesse contado para si mesmo.

A moça sentiu. E se condoeu.

– Dê-me todos os seus cacos – pediu com suavidade.

– São muitos... e não tenho certeza de que algum dia voltem a se encaixar. Não vale a pena...

Ela insistiu.

– Deixe-me tentar...

Ele riu.

– O roto tentando ajudar o remendado?... Ah, desculpe, não quis ser grosseiro...

– Em minha vida muitos foram grosseiros comigo. Mas e daí? Não importa. Talvez estivessem tendo um dia ruim, só isso.

Os lábios dele se retorceram num sorriso de amargura.

Um sorriso comedido. Um sorriso conciliador. Um sorriso que acoberta um assassinato. O assassinato de si próprio.

– Perdoar... esquecer... – resmungou.

– É... então, por que perguntou se eu acredito na reencarnação?

– Sabe... uma vez alguém me disse que eu teria vindo a esta vida (atual) com dois objetivos. Só dois. Primeiro: aprender a perdoar os outros. Segundo: o mais difícil (diria até impossível). Perdoar a mim mesmo.

Ela o olhou com mais cuidado.

– Fez tantas coisas ruins assim?

– Não o sei dizer. Talvez sim, talvez não. Outra vez também me disseram que o bem que fazemos hoje poderá ser esquecido amanhã. Mas que deveríamos fazer o bem assim mesmo. Veja que, ao final das coisas, é tudo entre cada um de nós e Deus. Nunca foi entre nós e os outros.

Ela concordou. E lhe confidenciou:

– Sabe, em minha vida apareceram muitas pessoas que me disseram “- Vai dar tudo certo”. Quando tudo o que eu precisava era encontrar uma só que me dissesse “- Estou aqui ao seu lado, mesmo que tudo dê errado”...

Ele riu, quase que ensandecido.

– É... e ninguém apareceu...

Ela o olhou até que com ternura.

– Apareceu agora...

– Será mesmo? – retrucou ele, com amargura. – O que você sabe sobre mim?

Continuaria a protestar, mas ela lhe enviou aquele olhar, o olhar de

sobrancelhas abaixadas que lhe lançaram um milhão de vezes ao longo de sua vida: o olhar de Não Discuta. Então tentou conciliar.

– Por que você acharia que eu poderia ser melhor que alguém? Sou tão falho, sou tão falho, que aqui estou sentado a seu lado sem saber bem o que irá acontecer conosco...

Como se não tivesse se dado conta de suas palavras, a moça murmurou:

– Eu nunca consegui imaginar ao certo, ou ter, um amor correspondido por um ser humano. Tive que direcionar os desejos para a paisagem, aquele grande campo verde vazio que não pode amar você de volta, mas tampouco pode magoar você.

– É... entendo... Procurando a segurança no fato de não ser vista. É um

hábito que você pode adquirir, desejar se manter invisível. E não lhe adianta muito na vida. Acredite em mim, não adianta. Não com as pessoas, os amores, os corações, a própria vida...

Ela concorda com a cabeça, um gesto que ele acompanha e que lhe causa certa surpresa, porque está começando a ver que, para algumas pessoas, às vezes a gentileza de um estranho pede uma confissão, pede

confidências, faz com que alguém fale sobre esperança, conflitos da alma e coração.

Quando volta a olhar, ela não parece mais uma simples e sofrida moça sentada a seu lado sobre um abismo, mas uma criatura talhada por um

milhão de anos de evolução para uma vida que ainda não viveu.

– Quantas vezes estive no meio de uma grupo de pessoas, em uma casa de família, e não queria mais ir embora. Aquele lugar estava consertando meu coração partido, mesmo que eles não o soubessem, mesmo que eles não se dessem conta disso. E como eu os invejava... Como, muitas vezes, me revoltava, ficava com raiva deles... por eles terem aquilo que eu nunca teria... Eu precisava de uma forte dose de sensação de lar... — Eles não iriam gostar de mim de nenhum jeito. Ninguém nunca gosta...

A moça não diz isso como se sentisse pena de si mesmo. É mais como se

estivesse simplesmente contando um fato, relatando como o mundo funciona.

Às vezes, em vez de sonhar com um milagre, a gente precisa aprender a fazê-lo.

(continua)


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