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Sentimentos - Fernando Coimbra dos Santos (passageirodachuva@gmail.com)

Caipira de Taubaté, Caiçara de Ubatuba

Ex-policial civil que não se embruteceu com a vida.

PhD em Solidão.

 


Tardes de chuva - Intróito ao Cap. I



Quinta, 11 de janeiro de 2018 23:02

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INTRÓITO

 

“Você diz que ama a chuva, mas abre seu guarda-chuva quando chove. Você diz que ama o sol, mas procura um ponto de sombra quando o sol brilha. Você diz que ama o vento, mas fecha as janelas quando o vento sopra. É por isso que eu tenho medo. Você também diz que me ama.”

(William Shakespeare).

 

Um dia, em algum lugar perdido do mundo, um andarilho chegou a um povoado também perdido no tempo e nos desencantos da vida.

Poderia estar trajando um simples manto com um capuz, grossas sandálias nos pés, um grande terço na cintura que lhe serviria de cinto, um crucifixo que balouçasse docemente sob seus passos lentos como se fosse a mão de Deus abençoando cada um de nós. Mas não.

Vestia-se como qualquer um, roupas simples como a sua alma e coração.

Igual a qualquer um.

Somente um detalhe, um único detalhe, o diferenciava de qualquer um: carregava de encontro ao peito, ternamente, cuidadosa, amorosa e inexplicavelmente, uma simples e feia bonequinha de pano.

Ao lhe ser perguntado por que tantas vezes ficava tristemente imóvel balançando a bonequinha como se a ninasse, olhando alguma coisa que só ele via e sentia, respondia de uma forma enigmática que escapava ao entendimento:

- Estou apenas olhando para a esperança...

Ou, às vezes, inconfessável:

- Estou apenas olhando para uma saudade...

 

Porque,

“Se você encontrar alguém disposto a caminhar na chuva do seu lado, não fuja, molhe-se.”                                                            (Contardo Calligaris)

 

Porque,

“Chuva é Deus lavando a casa do coração.” (Patricia Assmann)

 

Pelo menos, deveria ser.

 

I

Naquela manhã fria os poucos habitantes de um lugar perdido no mundo acordaram incrédulos com as batidas do pequeno sino da capelinha que há muito haviam deixado de ouvir em suas vidas vazias.

Por um momento, muitos pensaram estar sonhando. Não sabiam que o verdadeiro sonho estava apenas começando.

O lugar perdido no mundo chamava-se, apropriadamente, Esperança. Que o povo, desesperançado, mudara oficiosamente para Maravilha.

Neste nosso país do faz de conta, sonhos e esperanças foi o que restou para a imensa maioria de um povo também esquecido e infeliz.

Sonhos que não se realizam, esperanças que só servem mesmo para denominar alguns bairros ou pequenos municípios.

Os moradores principiaram a correr aos poucos para o começo da cidade, onde jazia a capelinha imersa na saudade, como se ela morresse pouco a pouco cada dia, um pouquinho mais a cada dia, relegada ao abandono de tudo e de todos, até esquecida.

Depararam-se, surpresos, com um homem que desconheciam.

Pobremente vestido, badalava alegremente o pequeno sino com a mão direita. Com a esquerda segurava, cuidadosa e carinhosamente, uma feia bonequinha de pano de encontro ao peito.

Ao ver o povo que chegava e se aglomerava diante dele, um sorriso indescritivelmente feliz arqueou seus lábios, transbordou por seus olhos e iluminou toda a manhã.

- Trago-lhes boas novas – principiou. – O que precisam mais em suas vidas? Sois filhos do Pai que estás nos céus, que faz com que seu sol se levante sobre maus e bons, e a chuva desça sobre justos e injustos.

Olharam estarrecidos aquele maluco. Bastava simplesmente olhar em torno. Será que ele não via a seca que estava matando tudo, seca que já perdurava há mais de ano? De estarrecidos, alguns olhares se tornaram desesperados, maldosos, homicidas.

Algumas crianças, atraídas por seu falar manso, e principalmente pela bonequinha que ninava em seu colo, tentaram se aproximar do homem, no que foram impedidos pelos pais que talvez vissem nele uma ameaça.

Por um momento, um rápido momento, o sorriso desapareceu dos lábios do desconhecido.

Então, com as duas mãos, como se erguesse um bebezinho para o alto, levantou a bonequinha para os céus para que todos a vissem e exclamou:

- Como disse nosso Senhor Jesus Cristo, deixai vir a mim as criancinhas, não as impeçam, pois o Reino dos Céus pertencem aos que se tornam semelhantes a elas. Delas é o Reino dos Céus.

Os pais não soltaram as crianças, as prenderam mais firmemente ainda.

Aquele maluco realmente deveria ser um homem perigoso. Além de tudo, com todo aquele fanatismo religioso...

O desconhecido continuou:

- Não vos inquieteis pelo dia de amanhã, porque o dia de amanhã cuidará de si mesmo. Basta a cada dia o seu mal. Mas hoje, hoje temos que ter amor em nossos corações. O amor nos faz crescer mais rápido, e ao mesmo tempo faz um adulto voltar a ser criança. O que precisam mais em suas vidas hoje, meus irmãos e irmãs?

Confusos com o que ouviam, ninguém soube o que responder.

- Não sabem? – provocou.

Um deles, talvez mais corajoso, talvez mais desesperado, talvez mais desencantado, abaixou-se, pegou uma pedra no chão poeirento, fez menção de jogá-la no desconhecido.

- Cale a boca, seu maluco, você não sabe o que diz. Vá embora daqui.

O homem continuou a ninar ternamente a bonequinha, sorrindo com doçura, como se não se desse conta do perigo a que estava exposto.

A pedra foi atirada, atingiu com violência a testa do desconhecido que lhes falava. Por um momento o homem segurou com mais força a bonequinha, para que ela não caísse, por um momento levou a outra mão até a testa de onde começou a correr um filete de sangue.

Aparentemente, sem se incomodar com aquilo, o ferido bradou:

- Quem não tiver pecado que atire a primeira pedra. – Ergueu o rosto para o céu. – Pai, perdoai-o, ele não sabe o que faz. Mas o Senhor sabe o que eles precisam.

Virou-se de costas, começou a badalar o pequeno sino outra vez, como se alheado de tudo e de todos. Então voltou-se, o sangue correndo por seu rosto.

- Muitas vezes deixamos de acreditar em nossos sonhos só porque alguém nos disse que eles eram impossíveis. Nada é impossível para aquele que crê.

Ergueu a bonequinha com ambas as mãos, como se fosse um cajado, e bradou, suplicante:

- Pai, nossas criancinhas estão com sede e fome, olhai por nós...

Todos aqueles que haviam se sentido surpresos com as batidas do pequeno sino da capelinha que há muito haviam deixado de ouvir em suas vidas vazias, de repente quedaram estarrecidos. Entremeado ao som do sino que esmaecia, inconcebivelmente o dia começou a se fazer noite.

Um segundo som, quase que esquecido, começou a se fazer ouvir cada vez mais e mais forte, surpreendendo a todos.

Um forte relâmpago cruzou o céu escuro, desaparecendo no infinito, outro trovão se fez ouvir e a chuva começou a cair mansamente sobre o povo sofrido de Esperança, que tombou de joelhos agradecendo a Deus aquele inexplicável e inconcebível milagre.

- Meu Deus... meu Deus...  é chuva... chuva... – gritavam incoerentemente, incrédulos.

O desconhecido voltou-se para o povo que orava e sorriu docemente.

- Não é chuva, meus irmãos, é Deus chorando por nós...

(Continua)


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