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Sentimentos - Fernando Coimbra dos Santos (passageirodachuva@gmail.com)

Caipira de Taubaté, Caiçara de Ubatuba

Ex-policial civil que não se embruteceu com a vida.

PhD em Solidão.

 


Flamboyant Florido XXXIV e XXXV Final



Quarta, 19 de dezembro de 2018 21:21

(final)

XXXIV

Agora Sophia estava diante de uma mulher que Gabriel desconhecia.

A tensão entre elas era visível: a mãe das crianças.

Tensão que se agravava. Nas camas, os dois pequenos, hospitalizados com uma grave pneumonia.

Sophia pensava, coração pequenininho, vendo na outra uma séria ameaça: “- Eu não roubei aqueles tesouros, mas também não quero devolvê-los”.

Mas fincou o pé ali, como um burro empacado, quando talvez devesse ter batido asas feito um passarinho. Se pudesse tê-los levado consigo. Mas não podia. E foi como se uma enorme bigorna pesasse sobre sua alma.

A mãe segurou uma das mãos da menininha e Sophia segurou a outra. Naquele momento se deram conta de que ambas tinham amado e perdido o mesmo homem. E talvez perdessem as mesmas crianças.

Ambas tinham perdido o chão sob seus pés, o rumo de suas vidas. Ambas tinham chegado ao fundo do poço e então descoberto que esse fundo era de areia movediça.

Até algumas horas antes, eram duas braçadeiras de chumbo atadas aos braços das crianças, puxando-as para o fundo. Pois agora elas precisavam que as duas mulheres fossem suas boias.

Nada importava, a não ser salvar aquelas crianças. E rezar, para isso. De vez em quando Sophia erguia o rosto, a outra fazia o mesmo, se entreolhavam, os olhares carregados de remorso, tristeza, medo, dor.

Boas intenções, esperança, amor maternal, todos os sentimentos que compartilhavam naquele momento triste e difícil, que na verdade estavam lá desde o início, mas não o tinham percebido porque só enxergavam a outra como uma ameaça.

Então, dias depois, as crianças tiveram alta. Foi a vez de Sophia ficar irrecuperavelmente doente da alma: a mãe se foi e levou as crianças com ela.

Gabriel, enfim, entendeu o motivo pelo qual Sophia, dias antes, havia chorado solidária com a outra mulher, suas histórias tão sofridas e tão parecidas.

Lembrou-se de uma frase de Sophia, dita há tanto empo que nem sabia mais precisar quando acontecera, nem se lembrava mais como exatamente fora dita: “- Quando Deus fecha uma porta, nos abre outra. E cabe a cada um de nós encontra-la”.

Ficou matutando onde raios estaria a tal da porta de que Sophia havia falado um dia, tentando consolá-lo.

- Eh, vida...

 

XXXV

Vieram no final da tarde e encontraram Gabriel deitado sob seu querido flamboyant, olhando tranquilamente através dos galhos, das folhas e das flores seu também querido por do sol. Ouvindo ao longe a música do alegre alarido de suas crianças que brincavam. Sentindo-se indescritivelmente feliz. E em paz.

As incontáveis borboletas azuis que surgiram de repente eram puras como a luz das estrelas e o brilho que delas se desprendia era leve e diáfano.

Como se fossem beija-flores, ficaram batendo as asas sem saírem do lugar enquanto a maior delas de aproximava de Gabriel e ficava bailando suave e docemente à sua frente.

Agora de cabelos totalmente brancos, alquebrado e cansado, Gabriel a fitou embevecido e perguntou por fim:

- Quem são vocês?

A grande borboleta Monarca respondeu:

- Somos suas irmãs de vida, Gabriel, viemos para levar você para mais alto, para leva-lo para sua verdadeira casa.

Gabriel sorriu.

- Já estou em minha casa, minha irmã.

- Não, Gabriel, ainda não está. Chegou a hora de você ir para sua verdadeira casa.

O entendimento raiou inexplicavelmente nesse momento para ele, as borboletas azuis tão lindas tinham razão, era mais que tempo de ir, finalmente, para casa, sua verdadeira casa.

Gabriel lançou um último olhar para o céu matizado de dourado, as flores do flamboyant onde os passarinhos cantavam uma despedida (ou seria um até breve?), despediu-se com ternura daquele cantinho mágico que encontrara um dia há tanto tempo atrás, e onde – agora o sabia – aprendera tanto.

- Estou pronto – disse, com um profundo suspiro, à grande borboleta azul.

E a alma de Gabriel elevou-se com todas as borboletas azuis que brilhavam como estrelas para desaparecer no dourado de seu último por do sol.

Viu-se conduzido a todos os lugares onde estivera em sua vida, como se a muda despedida nada mais fosse que uma última homenagem e agradecimento àquele seu pedacinho de terra, que amara e amava tanto, o sonho que ajudara alguém um dia a sonhar.

Como se fosse uma das borboletas, pairou sobre o caramanchão florido onde estivera tantas vezes, como se rezasse a Deus, de mãos postas, onde agradecera por estar finalmente encontrando uma razão para sua vida.

Pairou sobre o lago, seu oceano maravilhoso, viu depois pela última vez os blocos que abrigavam tantas almas sofridas necessitadas de amparo e socorro, subiu sem esforço para as alturas do céu azul, muito azul, o mesmo azul das flores que José um dia dera para a sua Maria.

Então um segundo espírito se fez presente. Uma luz azulada como as suas borboletas começou fraquinha e pouco a pouco foi ganhando intensidade até se materializar magicamente em um saxofone que, entoava sozinho um blues maravilhoso, a música de sua vida, que tanto o consolara tantas vezes.

Recordou-se do que dissera um dia a Sophia, sua doce Sophia, e sorriu com a lembrança:

- É... agora eu sou feliz, Sophia. Agora eu tenho uma razão em minha vida... – murmurara, comovido.

As borboletas azuis o conduziram até um largo e profundo precipício intransponível.

Intransponível?

Porque, de uma maneira inexplicável e maravilhosa, de repente três raios luminosos surgiram do nada. Vermelho, amarelo e azul.

Diante dos olhos de um Gabriel embevecido e surpreso, os raios, como as borboletas azuis, começaram a revolutear e a se entrelaçar.

Então se desdobraram em mais outras três cores: verde, laranja e violeta. Agora eram seis, magníficas em seu esplendor.

Tornaram a revolutear e a se entrelaçar, desdobrando-se finalmente nas cores do arco-íris, continuaram a se movimentar graciosamente em círculos num sobe e desce que não tinha fim, fazendo espirais, alongando-se entre as bordas do precipício, finalmente se estabilizando, constituindo uma fantástica e verdadeira ponte de ligação entre dois mundos.

A revelação atingiu o aturdido Gabriel aos poucos.

Lembrou-se então que aquilo era a mágica Ponte do Arco-Íris.

As borboletas azuis se imobilizaram diante dele e o reverenciaram.

A maior delas então lhe disse suavemente e com doçura:

- Não podemos passar daqui, Gabriel, ainda não é a nossa hora. Até o dia de nosso reencontro, nosso irmão. Agora vá, você está sendo esperado do outro lado. Vá, atravesse. Não vamos nos dizer adeus, isso não existe. Vamos nos dizer, simplesmente, até breve.

E então se foram.

Gabriel viu-se sozinho, mas não solitário.

Olhou uma última vez para trás, para o que deixava para trás, mas que estaria sempre em suas lembranças, em sua alma e eterno e imutável coração de menino.

Começou lentamente a longa travessia.

A primeira coisa que viu foi um lago, o mesmo lago, o seu oceano, onde saltitava um imenso e mágico marlim azul que sorria para ele.

Seu coração falhou um batida quando também viu lá do outro lado da Ponte do Arco-Íris quem o esperava, todos acenando alegremente, felizes.

O músico, José, Maria, e tantos outros que haviam partido antes dele.

Viu-se finalmente envolvido pelo amor e abraço de todos, sentiu-se então, finalmente, em casa, sua verdadeira casa, como lhe dissera a grande borboleta azul.

Continuaram a andar. Lá adiante um brilhante vulto etéreo que irradiava amor infinito o esperava. Como um sonâmbulo, Gabriel ajoelhou-se diante dele e recebeu sua bênção.

“ – Seja bem vindo, meu filho Gabriel. É bom ter você de volta, todos sentimos sua falta”.

FIM

 

DEDICATÓRIA

 

Dedico este livro a todos aqueles que conseguem se tornar uma razão na vida de alguém.

E, com isso, conseguir uma razão para a própria vida.

 

Dedico este livro a meu querido pai, que me fez ver e também amar a beleza de um flamboyant florido. Flamboyant que, um dia, se transformou num triste Ipê roxo.

 

A meu pai, que me ensinou, com seu exemplo, a me condoer com nossos irmãos de vida que sofrem. E realmente tentar fazer alguma coisa para mudar isso.

 

O Autor

 

Ex-policial civil com um passado violento, mas que não se embruteceu com a vida. PhD em Solidão.

 

“Quem luta com monstros deve velar para que, ao fazê-lo, não se transforme também em monstro. E se tu olhares durante muito tempo para um abismo, o abismo também olha para dentro de ti.”

(Friedrich Nietzsche)

 

Permitida a reprodução total ou parcial desde que mencionado o título do livro e o autor.

 

fernandocoimbrasantos@gmail.com

 

Bibliografia:

Livro 1 – O PÁSSARO DA NOITE (2001)

Livro 2 – GRITOS SEM ECOS (2001)

Livro 3 – O QUINTO CAVALEIRO DO APOCALIPSE (2017)

Livro 4 – IGAIBIRA: CANOA ENTRE DOIS MUNDOS (2017)

Livro 5 – MEU PEDACINHO DE TERRA, MEU PÉ DE SERRA... (2017)

Livro 6 TARDES DE CHUVA (2017)

Livro 7 – NOITES DE ESTELAS (2017)

Livro 8 – MELODIA EM TOM MENOR (2017)

Livro 9 – FLAMBOYANT FLORIDO (2018)


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