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Sentimentos - Fernando Coimbra dos Santos (passageirodachuva@gmail.com)

Caipira de Taubaté, Caiçara de Ubatuba

Ex-policial civil que não se embruteceu com a vida.

PhD em Solidão.

 


Flamboyant Florido cap XXIX



Quarta, 07 de novembro de 2018 15:10

(continuação)

 

Agora, todo entardecer, o ancião se transportava sozinho em sua cadeira para o caramanchão florido, o sax em seu colo, aguardando o por do sol.

Como Sophia dissera a Gabriel, referindo-se então ao antigo dono: “- Ele é um bom músico. Mais que com a técnica, toca com a alma. E você sabe a diferença entre uma coisa e outra. Não me pergunte como, eu não saberia lhe responder, mas mesmo tão distante, podíamos ouvir todo entardecer as músicas que ele chorava no instrumento. Essa é uma cidade mágica, lembra-se? Só isso explica isso e muitas outras coisas por ora julgadas incompreensíveis e inconcebíveis. De certa forma, sem uma música dele, o dia aqui nunca terminaria”.

Agora, parecia que o dia nunca terminaria no Flamboyant Florido se não houvesse uma música pelo sax.

Numa transição rápida e surpreendente, o ancião se rendeu à amizade e bondade de Gabriel, passou a considera-lo um amigo, passou a dividir e a confidenciar seus temores.

- Com vinte e poucos anos, finalmente me aproximei do meu pai. Nós

tínhamos muito pouco em comum quando eu era criança, e tenho certeza de que eu o deixava desapontado. Ele não pediu um menino com um saxofone, fechado em seu mundinho. Queria um filho que fizesse o mesmo que ele: nadar, jogar bola, essas coisas, mas não foi isso o que ele acabou tendo.

Gabriel apenas ouvia, sinceramente interessado.

- Um dia conheci alguém, e ela se tornou a razão da minha vida. - Sorriu, como se estivesse vivenciando o que contava. - Não tínhamos a menor vocação para brigar, mas ninguém fazia as pazes melhor do que nós. Merecíamos uma medalha por isso. Ela não gostava que eu saísse para tocar. Quando eu ia, ela acompanhava tudo com aquele seu olhar de sofredora fabricado apenas nas horas certas. Sim, nós cometemos muitos erros. Muitas vezes ainda tínhamos nossas desavenças e atritos, ainda estávamos procurando encontrar nosso caminho. Mas a casa vazia esperava por nós faminta, pronta para nos engolir.

Então desviou o olhar e correu os olhos à sua volta para evitar cair no choro. Gabriel respeitou seus sentimentos, sentindo-se frustrado por nada poder fazer. O ancião assemelhava-se a um barco prestes a naufragar.

- Um dia me acidentei, Gabriel, um motorista bêbado acabou com a minha vida. E com o meu casamento. Sei que a pressão foi demais para ela, ela simplesmente não suportou. Por mais que tentasse, reconheço isso. Mas isso, também, não consola de forma alguma, Gabriel. Ela agora era um exemplo de viúva de marido vivo/dona de casa/dona de cachorro/salvadora de marido paraplégico. No entanto, logo eu me daria conta de que a realidade não era bem essa.

Respirou fundo, sua voz começava a sumir aos poucos, preso das violentas e sofridas emoções que as recordações tão presentes o aniquilavam.

- Uma tarde ela foi me visitar no hospital. Fez uma visitinha de uma ou duas horas. Na despedida, nos abraçamos mais forte, como se cada um de nós pudesse ser a proteção de gesso que ajudaria a curar tudo o que havia se partido no outro. Depois foi embora para o distante Reino das Mulheres que Abandonam o Inútil Marido Paraplégico. Nunca mais a vi, nem nunca mais soube dela. Foi como se ela jamais houvesse existido, Gabriel...

Abafou um soluço, então continuou:

- Muitas vezes, durante o dia e a noite, eu conversava com ela mentalmente, revivendo partes de nossa vida juntos e contando sobre hoje, sentindo sua presença muito próxima, sempre tão próxima que muitas vezes eu olhara para o lado, esperando vê-Ia em pé, ali, mas ela nunca estava e nunca estaria, e isso me perturbava. Ela estava comigo para sempre, e eu sabia que a amaria para sempre nos meus  tempos trágicos. Ela estará sempre presente nos meus sonhos.

Uma lágrima correu por seu rosto crispado. Até onde aquela catarse seria realmente necessária? Gabriel nunca o saberia.

- Ela sempre me abraçava assim quando nos despedíamos. Eu sentia pelos seus braços o que ela estava pensando: “talvez esta seja a última vez”. É que ela queria se despedir sorrindo, se o conseguisse, não queria que eu percebesse que ela estava indo embora para sempre, que não voltaria mais. Sabe, Gabriel, era o que eu queria, por ela. Mas, de certa forma, era também o que eu não queria que acontecesse. Por mim. Não era justo... Mas, por outro lado, o que é justo nesta vida?

Gabriel sentiu os olhos marejados diante do drama que se desenrolava à sua frente.

- Antes de vir para cá eu conversava com meus amigos sobre esportes, como se este fosse o assunto mais importante do mundo. Mas os acontecimentos realmente significativos da minha vida ficavam escondidos, guardados em algum lugar inacessível para eles e até para mim mesmo. Então um dia eu me vi afastado de todos, esquecido, talvez descartado, nunca mais soube deles. Tive que arcar com as consequências de meu acidente.

Calou-se, como se buscando no fundo da alma uma explicação ou justificativa para aquilo, nada lhe ocorreu que o consolasse. As pessoas não são punidas por seus atos, mas pelos próprios atos, agora o sabia.

Mas havia uma lágrima escorrendo do canto de seu olho e, no rosto, uma comovente expressão de vulnerabilidade.

- É, Gabriel...  A vida é dura, meu amigo. Cada um segue em frente como pode.

Gabriel foi até a porta, não queria que o outro o visse comovido.

- Mas, agora... agora eu tenho em você um amigo aqui... Tenho um saxofone no qual posso tocar minhas mágoas, que me consola. É por isso que eu não me sinto mais sozinho aqui.

Então Gabriel voltou-se, abraçou aquele velho mago que se escondia sob uma tênue e insuficiente camada de verniz, aquele alquimista capaz de entrar em sua cabeça e colocar em seu coração as imagens que apenas vislumbrara, aquele homem que de algum modo o soubera fragilizar com uma história.

Agora, estava contando o que vivenciara para Sophia.

- ... teve algo a ver com a maldita separação  e com o sentimento que tudo estava morto, Sophia. Mas agora ele tem uma razão para viver, mesmo que a vida tenha roubado seu coração. É aqui, no Flamboyant Florido, que estão enterrados seus sonhos. A maioria das pessoas reclama do que não tem. Mas, aqui, agora, existe alguém fazendo o melhor com o pouco que lhe restou.

Sophia o ouvia em silêncio respeitoso.

- Ele me ensinou – mesmo que não tenha feito isso com estas palavras - a desculpar alguém que nos magoasse, mostrando que o mais importante é saber perdoar.

Sophia estava interessada. Aquela história não soava vazia e patética. Então, pela primeira vez, se manifestou com suavidade.

- Gabriel, se fosse possível, se pudessem, todos apagariam o passado.

O tom dela era doloroso.

Então, lá fora, naquele entardecer, ouviu-se o lamento do saxofone.

Sophia fechou os olhos. Os sons invadiram sua alma. Era como se ouvisse o músico negro tocando. Quando os abriu, viu que um fio de lágrima escorria pelo rosto de Gabriel.

- É lindo, não é? — disse ele, com a voz embargada.

- Foi ele quem a compôs? É tão... - Sophia procurava as palavras. - É tão simples... e tão bela! Não sei o que dizer!

Gabriel a deixou sozinha, saiu sem olhar para trás. Sophia foi até a janela a tempo de vê-lo caminhar, com passo firme, alameda acima. O dia mal entardecera. Ela grudou o rosto na janela até ver Gabriel se aproximar do músico e abraça-lo.

Em breve – ela o sabia - ele estaria cada vez mais em busca dos fantasmas que, a passos firmes, atravessariam a ponte da vida de tantas pessoas machucadas para a dele.

- Haveria esperança para Gabriel e para todos eles? – perguntou-se.

Então sorriu, confiante murmurou quase que para si própria:

“- Seja bem vindo à cidade de Redenção, meu filho. Nossa cidade. Seu lar.

Aqui é uma cidade mágica, lembra-se?”.

Seremos conhecidos para sempre pela música que fizermos, pela música que tocarmos. No coração e almas dos outros.

 


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