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Sentimentos - Fernando Coimbra dos Santos (passageirodachuva@gmail.com)

Caipira de Taubaté, Caiçara de Ubatuba

Ex-policial civil que não se embruteceu com a vida.

PhD em Solidão.

 


Flamboyant Florido cap XXVII



Quarta, 24 de outubro de 2018 16:42

(continuação)

XXVII

O primeiro paraplégico a ser acolhido pelo Flamboyant Florido foi um senhor de seus sessenta anos. Entrou cabisbaixo, em uma cadeira de rodas empurrada gentilmente por uma enfermeira.

Triste, cansado, aparentemente resignado, como se não esperasse mais nada da vida.

Apático, sequer respondeu (ou se deu conta) das boas vindas que Gabriel fazia questão de dar pessoalmente a cada um que ali chegava.

Enfurnou-se aparentemente indiferente a tudo em seu quarto, só foi convencido pela amável enfermeira a sair e pegar um pouco de sol mais de uma semana depois.

Gabriel o encontrou sentado na cadeira de rodas sob o caramanchão florido, um livro aberto e esquecido sobre o colo, os olhos perdidos e que nada viam revelando um desamparo e desencanto imensos.

Gabriel sentou-se num dos bancos, ficou em silêncio aguardando que o outro notasse sua presença.

Depois, muito depois, no que lhe pareceu uma eternidade, o sol começou a cair e o dourado matizou tudo de dourado, aquele dourado que deveria ser a vida de todos nós.

Então os olhos do ancião pareceram finalmente entrar em foco. Consciente da beleza do momento, de repente ergueu o rosto para o céu, depois os braços, como se fizesse uma respeitosa reverência. Só então voltou-se para Gabriel.

- Lindo, não é mesmo? – mais afirmou que perguntou.

Gabriel respondeu com suavidade:

- Mais que lindo... maravilhoso.

- Merecia uma música, o que acha? – perguntou o velho, surpreendendo Gabriel.

- Ou um quadro... não, um quadro não, uma fotografia, talvez.

- Isso, uma fotografia.

- Colorida? – perguntou Gabriel, depois de um momento.

O ancião riu.

- Não, meu jovem. Preto e branco.

Gabriel estranhou.

- Preto e branco? Mas colorida não seria mais bonita, mais real?

Ele girou a cadeira e ficou de frente para Gabriel. Olhou-o avaliativo, talvez julgando a sinceridade da atenção do moço.

- Preto e branco – repetiu. – Não sei explicar, mas tem mais alma. Cores são bonitas, mas não para uma fotografia. Cores são para os campos. Já viu alguma vez as nuances de verde de um campo, o jardim dos céus? Belas como as matizes do sol neste entardecer.

- O senhor é um poeta... – Gabriel se maravilhou.

O outro, pela primeira vez, riu.

- Não, meu jovem. Mas aprendi a ver as coisas bonitas da vida. Por mais que ela tenha judiado de mim, sei separar as coisas. Talvez (quem o sabe?), talvez eu tivesse que passar por isso para me tornar um ser humano melhor – confidenciou.

Ficaram num silêncio respeitoso, ambos apreciando o por do sol maravilhoso que trazia a noite, mas iluminava uma vida. Talvez duas.

- E como seria esta fotografia? – perguntou Gabriel.

A resposta foi pronta, como se ele estivesse à espera de alguém interessado por toda a sua existência, e que enfim chegara.

- Tirada sob uma música tocada com um saxofone.

- Ah... – foi a lacônica (mas expressiva) resposta do moço.

O outro o olhou com seriedade, procurando aquilatar a veracidade e profundidade de seu interesse. Então seus olhos se iluminaram com a alegria da constatação do reconhecimento.

- O senhor disse que não é poeta... mas se expressa como se fosse. É um fotógrafo?

O ancião riu, diante do reconhecimento.

- Não profissionalmente... Mas sempre gostei de fazer fotos.

- Fazer? Não seria bater? Tirar?

- Não, meu jovem. Fazer. Você estará eternizando um momento se apertar o obturador no momento certo. Você estará eternizando uma fração de segundo desta vida que pode ser tão madrasta, às vezes.

Refletiu, por um rápido momento. Então prosseguiu:

- Comecei a perceber o detalhe fundamental: eu fotografava a luz, não os objetos. Esses eram meros veículos para o reflexo da luz. Consegue entender isso? Eu gosto de fazer fotos. Pelo menos, é assim que eu vejo. Essa é a diferença entre os fotógrafos esporádicos e alguém que faz isso porque realmente gosta.

- Acho que compreendo... – murmurou Gabriel.

O ancião prosseguiu:

- As fotos que faço não ficarão exatamente como você esperaria. Eu as terei transformado em algo meu, com a escolha das lentes, ou o ângulo da câmera, ou a composição geral e, muito provavelmente, com uma combinação de tudo isso. Está me acompanhando?

- Sim, acho que estou entendendo.

- Eu não pego as coisas como me são dadas, como as vejo, simplesmente; tento transformá-las em algo que possa refletir minha consciência pessoal, meu espírito. Procuro encontrar poesia na imagem.

Gabriel teve que rir.

- Procura encontrar poesia na imagem... e nega ser um poeta...

- Ah, meu filho, digo poesia no sentido figurado. Fica mais bonito que dizer beleza, por exemplo, concorda?

- Concordo. Mas, por que fazê-la sob uma musica tocada com um saxofone? O senhor é músico, ou foi só outra questão de expressão?

O ancião voltou a olhar os últimos momentos do por do sol. Então continuou:

- Nunca cheguei a me considerar um profissional. Mas aprendi a tocar bem um saxofone. Senti isso no momento em que deixei de tocar com as notas e passei a tocar com a alma. Cheguei até...

Calou-se, como que arrependido, como se envergonhado de continuar.

- Até... – incentivou-o Gabriel. – Por favor, conte-me.

- Até cheguei a compor algumas coisas. Desculpe, não quero parecer pretencioso, mas acho que foram algumas coisas de qualidade. Ao menos, para mim mesmo.

- Ainda toca?

O ancião suspirou audivelmente. E respondeu com a voz plena de melancolia:

- Meu jovem, tive que vender meu sax há muito tempo. Nunca mais tive condições financeiras para comprar outro. E agora, estou aqui.

Disse isso como se resignado com suas desventuras.

- Quem sabe o senhor está aqui por uma boa razão – principiou Gabriel.

O outro riu.

- Por diversas boas razões. As principais são ter onde morar e onde comer.

Viu a expressão condoída de Gabriel, interpretou-a erroneamente.

- Desculpe a rudeza, mas tenho que ser objetivo, nesta altura da vida. Não estou aqui porque quero, não estou aqui porque simplesmente gostei do lugar. A propósito, meu jovem, quem é você?

Gabriel relutou com a exatidão da resposta.

- Antes de lhe dizer, vamos terminar o assunto que começamos? O senhor não respondeu minha pergunta indireta. Eu lhe disse “quem sabe o senhor está aqui por uma boa razão”.

- E eu lhe respondi.

- Acho que não. Talvez o senhor tenha dito o que sente agora. Permite que eu lhe diga o que acho?

O velho o olhou com seriedade e expectativa.

- Meu jovem, você teve a generosidade de conversar comigo, e não foi só por polidez. Diga-me. Agora me deixou curioso.

Gabriel riu.

- Então temo que o senhor terá que me dar a honra de conduzi-lo até minha sala. Só lá lhe poderei responder convenientemente.

O ancião o olhou com cuidado.

- Obrigado pela delicadeza, meu jovem. Você é o primeiro que pede para me conduzir, não simplesmente para me empurrar a cadeira. Já está ficando escuro, podemos ir?

- Será uma honra. Por favor, segure seu livro.

Gabriel começou a empurrar sem pressa a cadeira ao longo das alamedas floridas. O velho então pareceu-se dar conta de suas palavras, voltou a perguntar:

- Então, meu jovem, quem é você?

Gabriel sopesou bem a resposta. Queria a mais precisa possível, mas que não magoasse de alguma forma aquele poeta tão sensível.

- Meu nome é Gabriel. Digamos que eu ajudei alguém a sonhar este sonho.

- Como assim, meu jovem? Não entendi direito, acho.

Gabriel riu.

- Depois eu explico, se o senhor me permitir. Agora, vamos entrar.

Lembrou-se de Sophia. O que ela faria diante daquela situação? E não estaria ele, de alguma forma, agindo exatamente como ela agiria, cheio de aparentes subterfúgios que nada mais eram rebuscamentos que só valorizariam o que realmente precisava ser dito?

Atrapalhou-se com a cadeira, o ancião bondosamente o instruiu para entrar de costas, puxando a cadeira e não a empurrando.

- Humm... isso é difícil – reclamou.

O outro riu.

- Então precisa ver o que é aprender a andar com muletas. Nunca o consegui. Ou, talvez, não tenha me esforçado o suficiente, não sei bem.

Bom, enfim, o que o prezado jovem tem para me mostrar?

Gabriel sorriu, continuando a manter o mistério, o outro visivelmente interessado e curioso.

- Sei que o senhor irá gostar. Desculpe-me, mas preciso acender a luz, acho que me distrai.

- Não, meu jovem, você se atrapalhou foi com a minha cadeira.

Gabriel riu, cônscio que havia conseguido puxar para fora aquele homem do poço de tristeza onde vivia mergulhado. O problema, agora, era mantê-lo fora dele.

Acendeu a lâmpada, posicionou o ancião defronte a foto do músico e do sax no pedestal.

Gabriel viu o velho quedar estático, seu queixo caiu, ficou boquiaberto olhando para a foto em branco e preto e o instrumento.

 - Não acredito... – murmurou.

Pareceu esquecer sua deficiência. Estendeu uma das mãos em direção ao sax, por um momento horripilante tentou se levantar, não o conseguiu.

Então pareceu se dar conta de sua situação. Sem demonstrar abatimento ou frustração, levou as mãos às rodas e aproximou a cadeira do instrumento. Afagou-o com ternura incontida.

Então olhou quase suplicante para Gabriel, que intuiu o pedido implícito quase que desesperado.

- Por favor... – disse Gabriel, com um gesto de mão em direção ao sax.

(continua)

 


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