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Sentimentos - Fernando Coimbra dos Santos (passageirodachuva@gmail.com)

Caipira de Taubaté, Caiçara de Ubatuba

Ex-policial civil que não se embruteceu com a vida.

PhD em Solidão.

 


Flamboyant Florido cap XXII ao cap. XXIII



Quarta, 03 de outubro de 2018 15:20

(continuação)

XXII

A vida de Gabriel foi se enriquecendo – e adquirindo o sentido que ele precisava – com o dia a dia no Flamboyant Florido.

Pela primeira vez estava tendo a oportunidade de conhecer a vida como ela realmente é. Através dos diferentes tipos humanos (e ao mesmo tempo tão parecidos) com que passara a conviver.

Independente do fator idade, começou a conhecer (conviver) com suas mazelas, seus temores, suas dores, seus desencantos, suas fugazes e aparentemente inatingíveis, impossíveis esperanças.

- E, inevitavelmente, a sofrer junto – confessou tristemente uma tarde para Sophia, que o fitava atenciosa, com a simpatia costumeira.

- A dificuldade em nossa vida atual talvez seja uma redenção dos pecados cometidos em nossa existência anterior, ou a educação necessária para nos prepararmos para um nível superior na próxima – consolou ela com doçura.

Segurou as mãos consoladoras da velhinha, em busca de seu amparo.

- Eu me sento seguro aqui – reconheceu, para si mesmo. - Era como se a essência do que é ter uma avó tivesse sido condensada n’O Relicário na presença tão suave de Sophia. Ele não tinha nenhum medo de quem quer que fosse, do que fosse. Não naquelas horas. Não ali.

Deveria dizer aquilo para ela? Como se ela não o soubesse...

Então começou a contar a chegada de mais uma senhora no Flamboyant Florido:

- Margot, ela se chama. – Sorriu, desviou os olhos, como se olhasse para dentro de si mesmo. – Só o nome já dá uma ideia de como a velhinha é. Ah, desculpe...

Sophia sorria.

- Nós quem, cara-pálida? – brincou ela.

Apesar da intimidade (cumplicidade) que havia entre eles, Gabriel de certa forma se sentiu envergonhado pelo deslize, tardiamente se deu conta com a relação de grafia com o nome antigo de Sophia. Mas não era nada pessoal, não era nada preconceituoso. Pelo menos, não era para ser.

- Então também conhece a história do Zorro? Ah, não responda, não é preciso... (Haveria alguma coisa que ela não soubesse? – perguntou-se).

Ela riu, mais uma vez, uma risada limpa, cristalina, necessária, que iluminava o dia de Gabriel sempre que ele a escutava.

- Ninguém realmente se parece por fora com o que é de fato por dentro, Gabriel. Nem você. Nem eu. As pessoas são muito mais complicadas que isso. É assim com todo mundo.

Ele concordou, com um aceno de cabeça.

- Bom, enfim, entre nós brincamos que ela se chama “Amargot”, de tão amarga e difícil que ela é. Mas agora conheço alguns segredos, sei o quanto disso é fachada. Sei que ela não consegue aceitar o fato da nora a ter colocado no que ela chama de asilo.

- Triste, não é?  E isso acontece a tantos...

- Sei que elas se gostam, Sophia. Mas elas parecem não se dar conta disso. Já vi muitas vezes a ansiedade com que Margot a espera, como se angustia quando a outra demora quando promete vir, o temor que a outra não venha mais...

- Talvez esperando que a nora a tenha vindo buscar de volta, Gabriel. Por melhor que seja o Flamboyant Florido – disse Sophia, bondosamente.

- É... isso mesmo, é como também o sinto. Mas estas visitas são terríveis, acho que fazem mais mal que bem.

- Mas você sabe também que isso não lhe cabe julgar, meu filho.

- É... Nas visitas, é impossível não sentir a tensão entre as duas. Por que será que há sempre tanta violência entre sogra e nora? A nora não se torna sogra, um dia? Por que então ela sempre trata a própria nora com língua viperina e faz da vida dela uma miséria, e por que a garota faz o mesmo quando chega a sua vez? Ninguém nunca aprende?

Sophia o olhava com seriedade. Mas, por dentro, sorria. Realmente ela sabia das coisas, como pensara acertadamente Gabriel, que continuou:

- Sabe, Sophia, eu me admiro com a desnorteante credulidade das pessoas. O mais desconcertante é que até as pessoas mais inteligentes frequentemente veem apenas o que querem ver, e raramente olhem para além da mais delgada das fachadas. Ou que ignorem a realidade, rejeitando-a como uma fachada. E depois, quando o seu mundo inteiro se desfaz em pedaços e essas pessoas se veem de joelhos, ou atiradas ao mundo indiferente, arrancam os cabelos, ou rasgam as roupas, ou lamentam o destino, acusando Deus, o marido, os parentes - qualquer coisa ou qualquer pessoa - mas nunca a si mesmas. Muito estranho.

- São coisas da vida, meu filho... A propósito, está virando filósofo? - arreliou-o.

Gabriel riu, silenciou pensativo, por alguns momentos.

- Mas não deixa de ser estranho... e incompreensível...

- E difícil de aceitar – completou ela.

- É... por isso, como você disse, deve ser a vida.

Sophia riu, tentando animá-lo.

- Meu filho, a vida não seria a vida se não fossem estas coisas. Talvez seja o único caminho para aprendermos a superar isso e tantas outras coisas indecifráveis.

- Coisas? Fatos... E você não deixa de ter razão.

- Certo, fatos é uma palavra mais apropriada.

- Mas, até lá... Como aceitar o que não conseguimos entender? E como entender o que não podemos aceitar?

Sophia riu novamente.

- Ih... eu não disse que você está virando um filósofo? – brincou, tentando animá-lo. Havia alguns dias nos quais Gabriel, decididamente, parecia mergulhar no mais fundo dos fossos. Mas ela estava ali – e o estaria sempre – para ajuda-lo a subir de volta sempre que fosse preciso.

Ele tomou o final de sua xícara de chá.

- Bom, preciso ir embora, meus compromissos no Flamboyant Florido me esperam.

Ela o tomou pelo braço e o acompanhou até a porta mágica.

- E isso, com certeza, para você não é uma obrigação.

Gabriel sorriu, desta vez com alegria.

- Não, é um privilégio, Sophia.

Lá fora ele fez uma espécie de reverência brincalhona, a senhora retribuiu a despedida de modo aparentemente formal.

Mas, por dentro, sorria.

Esperou o moço a quem se afeiçoara tanto entrar no carro. Então lhe disse com suavidade:

- Há uma história de uma deusa que era muito má. Um dia Rá, o pai dos deuses, transformou-a na deusa do amor, para que depois disso os ferimentos que ela infligia às pessoas passassem a ser apenas

feridas do coração. Consegue entender isso, meu filho? – perguntou bondosamente.

- Vou pensar... – respondeu ele. – Acho que entendi, mas o simbolismo é muito profundo.

- Profundo é o sofrimento e o desalento das pessoas, meu filho. Mas vá, você agora pode diminuir isso em muitas vidas que estão sob seus cuidados. Vá, que você se tornou muito importante para elas, imprescindível. E nunca tenha dúvidas: muito amado por isso.

Ele a olhou com adoração.

- A senhora é muito generosa para comigo.

Ela riu.

- Lembra-se de nossa Maria? – perguntou com suavidade permeada de saudade, muita saudade.

Gabriel se enterneceu. Como seria possível esquecê-la? Era só um detalhe, um simples e pequenino detalhe, mas pleno de infinitos e doces significados: viu-a diante de si, arrastando os chinelos nas pequenas alamedas floridas do jardim, numa cadência que era característica dela, e de que ele sabia que sentiria falta mais do que qualquer coisa nos dias que viriam.

- Meu querido, como foi mesmo aquilo que nossa Maria disse um dia para nosso José? “- Eu tinha cento e dois pretendentes e escolhi você. Será que só isso não lhe diz quão maravilhoso você é?”. Pois então, eu não escolhi você para ser meu moço predileto?

Jogou-lhe um beijo (era a primeira vez que fazia isso), deu-lhe as costas e entrou n’O Relicário, deixando um Gabriel aturdido e surpreso diante do carro.

E imensamente feliz.

 

XXIII

Estavam sob o caramanchão florido onde Maria se sentara tantas vezes.

Aos poucos, muito aos poucos, enfim ele estava conseguindo ganhar a confiança da desconfiada Margot. (“- Mas agora conheço alguns segredos, minha querida, sei o quanto disso é fachada” – pensou, mas sem o dizer).

Aos poucos, muito aos poucos, enfim ela começou a deixar escapar alguma coisa, começou a revelar, a partilhar, seus sentimentos. Então alguma coisa pareceu se quebrar e ela chorou. E, sem defesas, sem se importar ou se dar conta do que fazia, começou a contar para ele, que a ouvia com ternura e paciência.

Contou da vida que tivera antes de chegar ao Flamboyant Florido, contou da morte do filho num acidente de carro, contou que a nora a jogara ali.

Então pareceu humanizar-se, deu-se conta (enfim) que estava sendo grosseira. E injusta. Imensamente injusta. Pediu desculpas, pela primeira vez admitindo abertamente a vergonha que sentia.

- Jogada, não – corrigiu-se. – Por favor, me perdoe. Agora sei que fui trazida para cá, não jogada.

Olhou-o com angústia, temerosa de que suas desculpas não fossem aceitas, temerosa das possíveis consequências que não sabia que nunca aconteceriam, não ali, não com Gabriel, não no Flamboyant Florido.

Mesmo porque, a cidade não se chamava apropriadamente Redenção?

Agarrou as mãos de Gabriel, olhou-o com olhos lacrimejantes.

- Por favor, tenha um pouco de paciência comigo – suplicou. – Sou apenas uma velha que perdeu tudo o que tinha no mundo...

Gabriel a olhou, também com olhos úmidos. O rompante de Margot o abalara sensivelmente. Num gesto pleno de carinho a abraçou, depois lhe beijou o rosto, depois lhe tirou os óculos, depois enxugou as lágrimas que teimavam em continuar caindo.

- Não há nada a perdoar, dona Margot. Tudo é só uma questão de tempo, só de tempo.

As mãos de Margot tremiam sob a incontida emoção que a assolava.

- Por favor, me perdoe – reiterou. – Sou uma velha caduca que não sabe o que diz... É... é só uma questão de tempo... prometo que vou me acostumar... que vou mudar... eu sou bem tratada aqui...

- E necessária. E amada – completou Gabriel com doçura. – Você é importante para nós. Muito. Tenha certeza disso.

Ela agradeceu, ficou um longo tempo em silêncio, como se recompondo, como se ordenando as ideias, os sentimentos, talvez avaliando o que contar, até onde contar. Mas sabia, tinha consciência, que não havia mais um caminho de volta, sabia que tinha que seguir em frente e contar tudo o que a afligia para aquele moço que a ouvia com tanta atenção, com tanto respeito, com tanto carinho. Voltou a falar da morte do único filho num acidente, falou do velório, do enterro, do que aconteceu depois. Contou de sua dor, de seu desespero, de sua agonia, da impossibilidade de aceitar o inaceitável. Então revelou:

- Como a própria morte, como as aves de rapina que sobrevoavam um bicho morto, os coveiros eram indiferentes a tudo isso. E foi essa indiferença, a constatação dessa indiferença, de que o mundo continuaria a girar sem meu filho nele, que me fez endurecer na dor e na raiva. 

Gabriel tornou-se o ouvinte perfeito, evitava até fazer algum comentário rápido, temendo que o encantamento daquele desabafo tão necessário se rompesse irreversivelmente. Limitou-se a segurar as mãos encarquilhadas da anciã que sofria com a dor de suas lembranças.

- Contudo... perdoar, sim. Mas esquecer… Ah, isso já era outra história.

Casa, pensei. E a palavra solitária chamuscava como fogo. Preciso ir para casa. Mas eu não estava mais certa onde ficava minha casa. Eu não estava mais certa de se tinha uma casa ou não. E meus piores pesadelos se confirmaram quando me trouxeram para cá. Perdoe-me, mas é a verdade... foi o que eu senti...

Gabriel aquiesceu, com um balançar de cabeça, não podia interrompê-la.

- Quando cheguei em casa... senti-me mais sozinha do que nunca. Na prateleira da sala, a fotografia de meu filho sorria para mim, como se nada tivesse acontecido. Mas... sabe? Eu não conseguia ver um homem feito ali, só via meu menininho que eu havia perdido para sempre, que nunca mais voltaria para casa, para mim, para minha vida.

Calou-se por um momento, a amargura e o desespero permeando sua voz.

- Filhinho – eu disse, inclinando-me para a fotografia, sem saber bem o que fazia. – Você sabe guardar segredo?

Calou-se mais uma vez, o terror do momento assolando mais uma vez sua alma e coração.

- Senti de repente que estava faltando alguma coisa muito importante. Então percebi com desespero o que estava faltando. Não havia mais meu menininho para derramar bebida no chão da cozinha, meu menininho para deixar seus trabalhos escolares espalhados pela mesa de jantar. Não havia meu menininho para humanizar essa casa, para ocupá-la, torná-la real com sua desordem, sua falta de jeito e sua bagunça. Essa casa precisava de uma criança para se tornar um lar. E minha criança se havia ido, só deixando dor, lembranças, e uma fotografia em que um adulto que nunca deixou de ser criança me sorria num quadro.

De repente sorriu, como que se sobrepujando a dor que a consumia e aniquilava.

- Um dia, ele pequenino, chegou alegre da escola e me deu uma caixinha de presente, amarrada com uma fita vermelha. Uma caixinha simples, com uma fita simples, mas para mim maravilhosa, a mais maravilhosa que meu filhinho poderia me presentear.

Sua voz se estrangulou. Forçou-se a continuar.

- “Para você, mamãe querida” – disse ele simplesmente, os olhinhos brilhando numa ansiedade comovedora.

As lágrimas voltaram a correr por seu rosto, mas ela sequer se dava conta disso. Gabriel deixou, era necessário que Margot pudesse exorcizar os demônios de suas lembranças. Então, com voz estrangulada, continuou:

- Coloquei meu filhinho sentado em meu colo, beijei-o, abri a caixinha com cuidado, encontrei-a vazia, consegui disfarçar minha surpresa. Então lhe disse, com carinho:  “- Você não sabe que quando se dá um presente a alguém, coloca-se alguma coisa na caixa? Ela está vazia...”. Ele então olhou para cima, sorriu para mim e disse: “- Ah, mãezinha, não está vazia não. Eu coloquei beijos aí dentro. Todos para você, mamãe”.

Sua voz falhou, ela olhou com desespero para Gabriel, que só podia ouvi-la em silêncio, ficara totalmente sem palavras.

- Como posso esquecer meu menininho, Gabriel? Como?

Então, aos poucos, a dor em ambos pareceu atenuar um pouco. Gabriel pigarreou, forçou-se a dizer alguma coisa que, esperava, pudesse levar um pouco de consolo àquela velhinha que abrira o coração para ele. Pressionou suas mãos que não largara durante todo o relato e lhe disse com suavidade:

- Não é para esquecer, dona Margot. Nunca. As pessoas que amamos, que partem antes de nós, continuam a viver para sempre em nossos corações.

Ela o olhou com a dor explodindo novamente nos olhos.

- Gabriel, disseram para mim que eu iria superar isso, que não iria doer mais. Eu nada dizia, só ficava olhando para quem me dizia isso. Eu sabia que os adultos só dizem isso quando alguma coisa vai doer muito. Como se eu fosse uma criança... E como dói, meu Deus, como dói. E como vai continuar doendo...

Gabriel teve que largar suas mãos e enxugar os olhos. Margot o olhou estarrecida, como se não acreditasse no que estava acontecendo: um estranho sofrendo com ela, sofrendo com sua dor.

Então se abraçaram e choraram juntos, cada um com os fantasmas de seus passados, irmanados e solidarizados pela mesma dor comum.

(continua)

 

 

Leia:

Flamboyant Florido Intróito ao cap. II

 

Flamboyant Florido cap III ao cap. IV

 

Flamboyant Florido cap V ao cap. VIII

 

Flamboyant Florido cap IX ao cap. XI

 

 

Flamboyant Florido cap XII ao cap. XIII

 

Flamboyant Florido cap XIV ao cap. XVI

 

 

Flamboyant Florido cap XVII ao cap. XIX

 

Flamboyant Florido cap XX ao cap. XXI

 

 

 


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Veja também:








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