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Elisa Mota

Carioca criada em Joinville, morando algum tempo em São Bento do Sul e Florianópolis.

Sou vegetariana desde os dezessete anos e recentemente me mudei para a terra do churrasco (Pelotas - RS), onde faço graduação em biotecnologia. Gosto de arte, cultura geral, animais domésticos, psiclogia, história e filosofia. Gosto de algumas pessoas também. Aprecio culinária japonesa... mas tem que ser sem carne. Gosto de escrever, desenhar, conversar, tocar violão, perder tempo na internet e dormir.


Tropeços do gigante



Quarta, 29 de outubro de 2014 14:53

Há quase dez anos, em uma aula de história, o saudoso professor Neotti comentou que brasileiros brigavam entre si por futebol, quando poderiam brigar por política. Eu diria que isso está começando a acontecer.  

Pouco mais de vinte anos atrás, o presidente Collor sofreu impeachment e os brasileiros precisaram dar novas chances às eleições. Em nosso país, voto direto é relativamente recente e ainda estamos amadurecendo em relação ao seu poder e às suas consequências. Estamos aprendendo a escolher representantes, a nos atentar a denúncias e a decifrar as estratégias de propaganda empregadas pelos candidatos.

Quanto ao saber votar ou não... Afinal, quem sabe votar? O que define o saber votar ou não? Grau de escolaridade? Conhecimento sobre leis, direitos e deveres? Vivências períodos de gestões anteriores?

Pergunto-me se há alguém que se sente plenamente confiante no momento de selecionar um indivíduo, com o qual o único contato são as propagandas (muito bem planejadas, incluindo crianças cantando, discursos ensaiados e todos os recursos possíveis para persuadir o eleitor) para administrar valores financeiros altíssimos, fazer concessões e contratos, traçar novos caminhos para a nação. Nação em que muitos anos serão vividos, sonhos serão batalhados e descendentes serão deixados. Consequências de uma administração de quatro anos podem ser eternas.  Será que entregaríamos nosso próprio salário ou nossa casa nas mãos de alguém que conhecêssemos tão pouco e de forma tão artificial? Por que, apesar de toda a desconfiança que a convivência em sociedade desperta, nos permitirmos confiar tão facilmente em personagens criados pelos partidos?

Personagens que muitas vezes não têm nada muito bom a oferecer, somente os consideramos uma alternativa “menos ruim” em relação ao seu oponente. E muitas de nossas convicções são estruturadas em notícias tendenciosas e no desconhecimento quanto a vários assuntos. Eu, como estudante da área da saúde, percebo o quanto ainda precisaria aprender para poder exercer minha profissão. Além disso, não tenho experiência em gestão, portanto não me sentiria segura em opinar sobre investimentos, mesmo na área da saúde. Então, o que dizer sobre economia, na qual não tenho nem parte de uma formação acadêmica? Vou confiar nas análises apresentadas em jornais e revistas? Se há divergências até entre meus professores da área médica, apesar de tantos artigos publicados, diretrizes e evidências, como não haver entre especialistas da economia, quanto a situações atuais, anteriores e até previsões para os próximos anos? O mesmo se aplica à educação, infra-estrutura, segurança pública e tantos outros setores a serem trabalhados pelos governantes.

Ademais, não tenho experiência no exercício de um cargo político. Não sei o que é lidar com a pressão da imprensa ou de apelos populares, conter greves ou negociar com colegas parlamentares. Como posso criticar a atuação de um parlamentar? Posso me pautar em leis e no pouco de informações que chegaram a mim quanto aos seus direitos e deveres. Porém, tudo isso é ínfimo diante de tudo o que compõe a realidade política. Somos todos passíveis de manipulação? Acredito que sim.

Creio que seja muita presunção afirmar que outra pessoa “não sabe votar” só porque seu posicionamento nas urnas foi diferente do meu. Não julgo o medo de perder benefícios adquiridos, pois qualquer um teria medo de perder aquilo que melhorou sua qualidade de vida. Também não critico a rejeição de quem discordou de medidas do governo, especialmente aquelas relacionadas à sua atuação profissional. Todos têm o direito de escolher o que parecer melhor para si. Porém, ao “votar por conveniência”, é incoerente condenar quem também “vota por conveniência”, mas prefere outro candidato.

Apesar de tantos questionamentos, sinto-me otimista. Como disse no começo do texto, os brasileiros estão mais interessados em política. Para mim, o “gigante acordou” sim, mesmo que tenha preferido ficar em casa por medo do confronto com a polícia, ou de encontrar manifestantes mais “enérgicos”. Ele só está um pouco sonolento e começando a processar a realidade ao seu redor. É ainda muito inexperiente para tomar suas decisões de forma mais sábia e dará alguns tropeços até estabelecer um rumo mais esclarecido e confiante. Mas está desperto, barulhento e disposto, como um bebê que acaba de acordar.


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