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São Bento do Sul

ENTREVISTA
"Que a população se conscientize"

"Acho bonita essa 'comunidade europeia', o pessoal que veio, os alemães, os italianos, os austríacos - mas que trouxeram também essa questão do álcool. As novas gerações, com quem temos conversado, já se conscientizam de que isso não pode ser levado para frente"

Foto Elvis Lozeiko/Evolução

Participamos da reunião mensal do Conselho Municipal Antidrogas (Comad) de São Bento do Sul, nesta semana, no auditório da prefeitura. Com a presença de boa parte dos conselheiros, o presidente interino Maurício Maia entregou ao prefeito Magno Bollmann a Carta de Intenções elaborada, basicamente, a partir do que foi colhido durante o 1º Seminário Municipal Antidrogas, realizado há pouco tempo. Após a reunião, Maurício concedeu a entrevista que segue ao Evolução, destacando o pedido de criação de um Departamento Municipal de Segurança e Combate às Drogas e à Violência, a problemática envolvendo o crack no município, a sua opinião em relação a uma possível legalização da maconha no Brasil e sobre a fama de "cidade beberrona" que São Bento do Sul carrega.

EVOLUÇÃO - Conte-nos, Maurício, sobre sua experiência na área - você que hoje preside interinamente o Conselho Municipal Antidrogas de São Bento do Sul.
MAURÍCIO MAIA -
Tivemos experiências em alguns Estados por onde passamos e onde criamos Conselhos Antidrogas e Conselhos de Segurança. Hoje estamos aqui em São Bento fazendo esse trabalho junto ao Comad, junto com o pessoal que está interessado em disseminar essa ideia do combate às drogas, para que possamos ter conscientização e prevenção. A prevenção e a conscientização são importantes. Se a pessoa for conscientizada, não vai usar crack, álcool - e até mesmo o cigarro. É importante a campanha que o jornal Evolução tem feito na cidade, alertando que é proibido fumar (em espaços públicos fechados, conforme a Lei Municipal 1.546/2006). Todas as drogas têm o seu lado pernicioso, o seu lado mau, então as pessoas conscientizadas vão dizer "não" às drogas e vão viver uma vida saudável.

EVOLUÇÃO - Estamos um tanto quanto surpresos, porque participamos do evento de transmissão de posse da ex-presidência do Comad para a atual diretoria. Isso foi no início do ano. Agora recebemos a informação de que, por exemplo, o conselho ainda está sem secretária - o que houve, ou o que não houve, nesse período?
MAURÍCIO MAIA -
No começo do ano o Andrigo (Carvalho) assumiu a presidência, mas agora está licenciado. Então, estávamos com a presidência e com a vice-presidência. Os demais cargos não estavam documentados. A partir de hoje (terça-feira 10), os cargos de primeira-secretária, segunda-secretária, primeiro-tesoureiro e segundo-tesoureiro já estão preenchidos. A ata será lavrada. A partir de agora poderemos reivindicar verbas públicas - até do governo federal.

EVOLUÇÃO - Nesta reunião, agora há pouco, foi entregue uma Carta de Intenções ao prefeito Magno Bollmann, fazendo uma série de reivindicações.
MAURÍCIO MAIA -
As propostas desta Carta de Intenções foram retiradas, em sua maioria, do 1º Seminário Municipal Antidrogas, que aconteceu no dia 30 de junho, na Câmara de Vereadores. A Carta de Intenções foi entregue ao prefeito e aos vereadores (através do vice-presidente Tadeu do Nascimento/PT, presente durante parte da reunião).

EVOLUÇÃO - Um dos pontos da Carta pede a criação de um Departamento de Segurança e Combate às Drogas e à Violência na estrutura administrativa. Seria uma forma de puxar para o Município a responsabilidade dessas questões, que hoje estão mais voltadas ao Estado e à União?
MAURÍCIO MAIA -
Sim. O prefeito já esteve em Brasília, vendo como o Pronasci (Programa Nacional de Segurança Pública com Cidadania) e o GGI, que é o Gabinete de Gestão Integrada, funcionariam no Município - para que o cidadão, tanto através do Comad como através do Conseg (Conselho de Segurança), possa mostrar para a Polícia Militar como quer o policiamento na cidade, por exemplo. Às vezes as pessoas apenas esperam da Polícia Militar e da Polícia Civil, mas a sociedade deve propor ideias, deve acompanhar o trabalho policial. Hoje temos quatro Consegs formados em São Bento - cada um tem seus presidentes e sua diretoria formada. Esses Consegs se reúnem uma vez por mês - e através desses conselhos a polícia pode definir ações.

EVOLUÇÃO - O prefeito falou, durante a reunião de hoje, que "o crack está sumindo", pois é "uma droga que está saindo de linha". Mas na realidade dos Municípios, dos Estados, do Brasil inteiro, praticamente, a situação está feia.
MAURÍCIO MAIA -
O crack é uma droga devastadora, uma droga que vicia rapidamente. A dependência química do crack acontece através de uma fumada. Ela é realmente barata - para o traficante não é muito importante. Se o cara se afundou no crack, ele vai roubar, vai fazer tudo que o traficante quer, pois é dependente da droga, que traz muitos problemas. Não escapa um bairro de São Bento que não tenha problemas seríssimos com o crack.

EVOLUÇÃO - É no ambiente escolar que está o grande ponto-chave em relação à prevenção? Temos o Proerd (Programa Educacional de Resistências às Drogas e à Violência), que faz um trabalho maravilhoso, com o juramento das crianças, se comprometendo a não utilizar drogas.
MAURÍCIO MAIA -
As escolas, as associações, as igrejas... O problema do crack e de outras drogas deve ser levado também para as igrejas. Nas escolas é onde estão as crianças, os jovens em formação - inclusive formação moral. O trabalho do Proerd é reconhecido no Brasil todo. É um trabalho magnífico que a Polícia Militar desenvolve. Creio que o Município pode desenvolver um projeto paralelo, algo parecido com o Proerd. Como já disse, não escapa um bairro de São Bento que não tenha problemas seríssimos com o crack. Por isso colocamos na Carta de Intenções que queremos a formação continuada de conselheiros e lideranças para programas de prevenção. Através de palestras nas escolas, nas associações, nas igrejas, acredito que conseguiremos fazer com que as pessoas sejam conscientizadas.

EVOLUÇÃO - São Bento do Sul tem uma fama que emergiu da própria população: é uma cidade onde se bebe bastante - e não podemos falar em drogas sem falarmos da bebida alcoólica.
MAURÍCIO MAIA -
Sem dúvida!

EVOLUÇÃO - Na reunião de hoje, foi feita a sugestão de um evento durante o desfile da Schlachtfest. Mas precisamos lembrar que já houve casos de, por um lado do automóvel, durante o desfile, estarem sendo entregues panfletos do tipo "Se beber, não dirija" e de outro lado sendo distribuídos copos de chope. Aí as coisas não funcionam, não é?
MAURÍCIO MAIA -
Aí não funcionam... Toda a minha família é de aqui de São Bento e eu já residia há muito tempo aqui, depois fui para o centro-oeste e para algumas cidades do nordeste. Eu sempre via pela televisão: "São Bento, a cidade nº 1 no consumo de cerveja". E aí vêm outras bebidas, como cachaça, uísque, etc. Isso traz muitos prejuízos para a saúde da população. No hospital, por exemplo, vemos pessoas com problemas seríssimos causados pelo álcool. Então, devemos prevenir isso. Devemos conscientizar a população que temos outros méritos. Acho bonita essa "comunidade europeia", o pessoal que veio, os alemães, os italianos, os austríacos - mas que trouxeram também essa questão do álcool. As novas gerações, com quem temos conversado, já se conscientizam de que isso não pode ser levado para frente. Hoje, se formos observar São Bento, há muitos problemas nas famílias porque o esposo bebe, a esposa bebe - e aí entram em conflito, o que acaba gerando separações, agressões, coisas erradas no trânsito, briga de vizinho com vizinho, etc.

EVOLUÇÃO - Tem um assunto bastante polêmico. Há quem diga - entre eles o ex-presidente Fernando Henrique Cardoso e o atual governador do Rio de Janeiro, Sérgio Cabral -, que uma droga considerada "leve", como a maconha, poderia um dia ser legalizada no Brasil. Há uma historinha que o antigo comandante da Polícia Militar de São Bento do Sul, hoje major Zelindro (Ismael Farias), nos contou. Ele disse que estava de férias na Holanda, quando de repente chegou um cidadão lhe oferecendo todos os tipos de drogas. Depois de dizer não, segundo ele, foi até um policial que estava próximo, se identificou como oficial da polícia brasileira e perguntou por que o policial não havia feito nada contra o traficante. De acordo com ele, o policial disse: "Ele não é um traficante. É um comerciante de entorpecentes que paga impostos e merece segurança como todo mundo". No Brasil, nunca chegaremos a esse ponto!
MAURÍCIO MAIA -
Participei, enquanto presidente da Associação Brasiliense Antidrogas, de várias audiências como palestrante na Câmara dos Deputados. Lembro muito bem do deputado (Fernando) Gabeira (PV/RJ), que defendia a legalização das drogas. O próprio (então) ministro Gilberto Gil (da Cultura) era um defensor da liberação da maconha, em primeiro lugar. Mas também tínhamos outros parlamentares, como o Moroni Torgan (DEM/CE) e o Magno Malta (PR/ES), que foram sempre contra a legalização. Os países que legalizaram as drogas hoje querem voltar a proibir novamente. O álcool, por exemplo, é legalizado - as pessoas compram livremente, mas olhem os problemas que ele traz! Teve um rapaz que morreu recentemente porque ingeria muito álcool aqui na praça de São Bento. Se legalizarmos as drogas, teremos uma avalanche de pessoas que vão ficar doentes e morrer. Não podemos aceitar! Temos que fazer uma campanha para que o cidadão consciente diga “não” às drogas.

EVOLUÇÃO - Por favor, presidente, para encerrarmos a entrevista...
MAURÍCIO MAIA -
Nessa oportunidade que o jornal Evolução abre ao Comad, quero deixar uma mensagem. Devemos dizer “não” às drogas em todas as circunstâncias. Vemos jovens completando 14 ou 15 anos e os pais que fazem festas para eles e consomem caipirinha, vinho, uísque. Não é bom que o pai de família faça isso! O jovem vai olhar para uma caipirinha e vai desejar - vai querer experimentar mesmo! Vai acabar entrando no álcool e trazendo consequências para ele mesmo, para sua família, para a sua vida, que pode ser perdida por causa de um ato impensado do seu pai, do seu avô ou do seu tio. Que a população se conscientize.